Entrevista da Semana: Noesis chega aos EUA e aposta forte em BI e OutSystems

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Fundada em 1995, a Noesis é uma consultora de inovação tecnológica global com escritórios em Lisboa, Porto, Coimbra, Bruxelas, São Paulo, Dublin e Roterdão. Falámos com Nelson Pereira, o CTO da empresa, que referiu que as grandes apostas para o próximo ano são, além da abertura do escritório em Boston, nas áreas de Big Data e OutSystems.

A Noesis desenvolve Projetos, Consultoria e Outsourcing numa série de áreas. Como é que vêm a Transformação Digital e de que forma podem ajudar as empresas a abraçarem este desafio?

Nelson Pereira – Transformação Digital é um tema que está em voga de há uns anos para cá, principalmente nos últimos de há 2 anos. O que é facto é nos vemos que o negócio tradicional começa a ter alguns problemas vincados, mesmo aqueles negócios que estamos habituados a ver há anos e anos consecutivamente a não mudarem muito. Eu dou sempre o exemplo da Banca, em que agora vemos uma Bitcoin a vir ao mercado e a destabilizar completamente o que é que são os ideais de uma área financeira, o que é uma moeda. Fazem-se transações de milhões em Bitcoins, o que vem provar que, ou mais avisar, que tem que haver uma alteração nos negócios, na forma como os vemos.

Também há outros negócios que passaram agora a estar mais envolvidos no digital, que tem a ver com outro assunto que é a mobilidade. Nós pertencemos cada vez menos a uma região ou a um sítio, movemo-nos mais a nível nacional e internacional e precisamos de aceder rapidamente a tudo o que nos faz falta. Por exemplo, no retalho, a componente digital tem aumentado 10, 15 ou 20% todos os anos. Isto quer dizer que as pessoas estão cada vez mais a ir para o mundo digital e aí fazem as suas compras, leem os seus livros, traduzem a sua vida.

Ainda há pouco tempo estive num evento em participei numa mesa redonda e em comum tínhamos a mesma ideia. Antigamente falava-se de abrir um site na web e isto era a transformação digital. Nada tem a ver com isso, é uma coisa mais profunda, quem dera a muitos que fosse só isso. Requer um planeamento e um investimento bastante avultado. Quer dizer muitas das vezes que as administrações das empresas têm de ser sensíveis e humildes em dizer, o que é que podemos fazer para transformar mesmo o nosso negócio. Empresas de eletricidade ou energia, começam a vender eletrodomésticos online, televisões, etc. Começa a haver ideias cruzadas de negócio que vão fomentar tanto o uso do produto normal dessa empresa como novos produtos que antes essa empresa, nem sonhava comercializar ou vender.

É preciso começar por analisar o tipo de negócio, o que é que se pode fazer no mundo digital e depois perceber que tipo de investimentos se podem fazer. Para onde todos caminham, ninguém sabe muito bem. Transformação digital tem de acontecer, é um facto, mas para onde todas a empresas caminham? Cada uma caminha para diferentes sítios e a diferentes ritmos.

Coisas concretas que a Noesis pode fornecer é, por exemplo, permitir que uma empresa comece a ter os seus produtos online, que é diferente de ter um site. Disponibiliza os produtos, ciclos de venda, os contactos, etc de uma forma interativa sem necessidade de haver interação humana. Depois há uma coisa muito importante que é analisar se vale a pena, aí entra o Big Data. Nós já tínhamos uma área de Business Intelligence que trabalhava essencialmente em analítica, agora fazemos análise preditiva, ou seja, tentamos perceber através de vários padrões o que é que vai acontecer, antes de acontecer. Big Data significa aproveitar não só os dados operacionais que entram do dia-a-dia da empresa, mas ir buscar todo o contexto à volta, desde notícias ao Facebook e Twitter. Depois é tratar estas informações, diminuí-las e conseguir aproveitar essa informação para ter predições muito mais assertivas, como por exemplo que tipo de produtos se vão vender para a semana. Coisa que há 10 anos atrás ninguém fazia. Hoje em dia tudo se aproveita. Podemos apostar numa coisa, mas depois temos de saber se valeu a pena ou não e percebermos para onde temos de ir, mas isso só aproveitando os dados. Toda esta complexidade é impossível de fazer à mão, tem de ser através de sistemas que vão recolher toda esta informação e dão dados em concreto para a pessoa decidir. Isto para nós é que é a transformação digital. É algo sistematizado, que tem os seus passos, tem os seus investimentos e as suas decisões.

A Noesis atua em diversas áreas como Quality Management (QM), Business Intelligence (BI), já aqui referida, Infrastructure Services (IS), entre outras. Atualmente, que área da empresa mais contribui para o volume de negócios?

NP – São as áreas de Quality Management, Infraestruturas e de Professional Services. As três juntas significam cerca de 60% da nossa faturação e tal acontece por uma razão, são as que mais cedo começaram e em que fomos acumulando faturação e ganhando cada vez mais clientes. Todas outras como BI, ERP, ES (Enterprise Solutions) e AS (Agile Solutions) são áreas que foram criadas posteriormente.

E quais as áreas em que estão a apostar?

NP – Uma das áreas muito importantes para nós, neste momento, é Agile Solutions que é baseada em OutSystems, uma plataforma portuguesa, que é uma forte aposta da Noesis e tem tido um crescimento incrível nos últimos anos. Somos a maior fábrica de OutSystems, temos cerca de 100 pessoas a fazer desenvolvimento e estamos muito ligados à própria OutSystems, em termos de parceria. Caminhamos em conjunto, não só em Portugal, como na Holanda. E também no escritório que vamos abrir brevemente nos EUA, em Boston, onde vamos começar a entregar serviços ligados ao desenvolvimento de OutSystems. Outra é a área de BI, em que a analítica foi uma aposta nossa há alguns anos, mas agora apostando em Big Data. Estamos com uma parceria com a Cloudera, e estamos a ter bastante aceitação no mercado.

A nível internacional, outra grande aposta é em Quality Management, em que já somos número um em Portugal de acordo com a IDC, e temos 200 consultores. Temos algumas inovações como ferramentas na área de testes automáticos criadas por nós e com forte aceitação, de momento. Esta é uma das áreas mais antigas e mais maduras e por isso nós estamos com uma forte aposta para a Irlanda e Brasil, onde já estamos com clientes de referência como a TV Globo e a Embraer. Esta é uma das áreas fácil de internacional pela sua maturidade e pelo know-how que temos nas equipas.

Há cerca de 2 anos criaram, em Coimbra, a Fábrica de Software – Software Factory, para dar suporte às unidades de negócios existentes. O que é concretamente a Software Factory? Como é que sentiram necessidade de criar essa unidade e porquê Coimbra?

NP – Nasceu por várias necessidades e chama-se Software Factory porque a primeira necessidade era, de facto, ligada à criação de software precisamente a esta de OutSystems. A OutSystems está a provocar, neste mercado, acho que um problema dado que não há consultores suficientes para atender a tanta procura. Começa por ser um ponto positivo e as virtudes são mais que muitas, mas depois negativamente há a luta entre empresas para conseguir esses contratos, e nós na Noesis temos conseguido muitos desses contratos, mas depois o problema é entregar e com a qualidade que nós queremos. Assim, os recursos são muito importantes para nós e Lisboa está a ficar caótico não só para OutSystems mas para outras áreas também.

O Web Summit deu-nos visibilidade ao mundo, mas trouxe problemas acrescidos de recursos. Muitas empresas lá fora começaram a ver Portugal como um bom sítio para vir, mas podia ser por dois modelos, um era contratar empresas portuguesas para fazer o seu trabalho, que acho que era isso que deveríamos conseguir obter, e a outra é virem para cá instalarem-se mesmo e começarem a procurar recursos diretamente. Esta segunda parte é complicada para o tecido empresarial em Portugal porque se os recursos já eram escassos agora ficaram mais. Isto em Lisboa e Porto. Coimbra surgiu por isso mesmo, tem pólos tecnológicos, tem uma boa universidade e começamos lá a experimentar e temo-nos dado bem. Neste momento, temos lá 50 pessoas em que conseguimos que sejam todos tecnológicos.

O que também pretendemos em Coimbra é uma menor rotatividade. Em Coimbra, a rotatividade é muito mais baixa e conseguimos manter o know-how. Por outro lado, quando se fala que nos centros Nearshore temos redução de custos, é verdade. Quando pagamos menos 10 ou 15% do que em Lisboa, mas ao fim do mês os colaboradores têm a mesma componente líquida ou até maior (em virtude de um custo de vida inferior), isso facilita e traduz-se numa verdadeira redução de custos. Coimbra trabalha internamente com toda a equipa e áreas de negócio e não diretamente com o cliente, está a trabalhar sempre remotamente. Esta é a grande diferença e o senão disto é que é preciso mais gestão, temos de ter esta aposta numa gestão mais efetiva e forte.

Em termos de planeamento, começamos a expandir na Holanda o desenvolvimento de software em OutSystems e por isso, desenvolver de Lisboa, do Porto ou de Coimbra é a mesma coisa. Correu bem, continuámos a investir e depois começamos a pensar, “mas porque é que há de ser só esta área e não mais áreas?” O objetivo inicial foi cumprido e vamos alargar. À partida o nome será alterado dentro em breve, porque começou como uma Software Factory mas, neste momento, já temos área de qualidade, infraestrutura, etc e o nome já não faz sentido.

Em que medida é que a Software Factory é um polo de inovação da Noesis?

NP – Nós incorporámos lá a inovação e isto tem uma razão de ser. Como estamos muito perto da universidade, temos ligações a vários professores e ao Instituto Pedro Nunes. É-nos fácil conseguir trabalhar com eles. Uma das vertentes é que os recursos que vêm da faculdade estão em projetos de inovação, que nós podemos apoiar e ajudar a transitá-los para o mundo empresarial.

Quais são as tecnologias mais trabalhadas na Software Factory, além de OutSystems?

NP – Nós, de uma forma geral, também desenvolvemos para várias peças que precisamos para web, desenvolvemos em Java, .Net, etc. Foi lá que desenvolvemos a nossa ferramenta de testes automáticos, o ntx, orientada por uma pessoa sénior de cá mas essa inovação foi toda feita em Coimbra.

A Noesis tem cerca de 50 colaboradores na Software Factory? Estão a pensar recrutar mais profissionais em 2018?

NP – Sim, continuadamente. O plano é um aumento até 100 colaboradores até 2020. Eu acho que o aumento será proporcional conforme corram as nossas regiões, como os EUA, Irlanda, UK, Holanda, etc. Eu diria que vai ser mais agressivo, estamos a entrar em 2018 e temos dois anos pela frente. A Software Factory já existe há dois anos, mas à séria existe há um e nesse tempo cresceu cerca de 40 colaboradores. Se formos analisar por aí, eu diria que, com o crescimento que estamos a ter lá fora, vai crescer acima disso e vai superar os 100 colaboradores. Mas vai depender do aumento das necessidades lá fora, na internacionalização. O nosso objetivo é irmos para fora e atendermos da zona de Coimbra.

A Noesis detém vários escritórios em Lisboa, Porto, Coimbra, Bruxelas, São Paulo, Dublin e Roterdão. Que percentagem do negócio é já feito fora do território nacional?

NP -Eu diria que estamos na casa dos 15%. Nós ainda não temos uma exposição muito forte lá fora, o que é bom no seguinte aspeto, há aquelas empresas que neste momento já têm exposição de 80% e então olham para o ano seguinte e dizem vai ser bom ou não? Não se sabe. O nosso vai ser bom garantidamente porque ainda temos muito para crescer lá fora e os pedidos são mais que muitos. Estamos muito contentes com isso, sabemos que o mercado nacional é complicado e mesmo em épocas de crise tivemos crescimento em Portugal, nunca decrescemos. O lá fora foi sempre um rebuçado, é bom e queremos fazer, mas fazemos com calma. Os 15% refletem algo muito estruturado e muito seguro, todos eles são negócios de continuidade. Temos clientes como o Save the Children e a TV Globo.

Qual o peso do negocio internacional da Software Factory?

NP – Eu diria que entre 80 a 90% da capacidade que temos na Software Factory está a fazer negócios para fora do país.

A operação no Brasil tem correspondido às vossas expectativas? Que soluções são as mais procuradas?

NP – Não, o mercado é muito grande e muito competitivo. O início até correu bem porque entrámos e conseguimos logo negócio, mas depois as coisas mudaram. Entramos há três anos e o primeiro ano correu muito bem com o cliente Citibank, mas depois ficou mais difícil porque a cadência de tomada de decisões é muito grande e a força de trabalho é muito volátil. Foi uma curva de aprendizagem e não estávamos à espera. Neste momento, estamos muito estabilizados e o nosso maior cliente é a TV Globo. Temos cerca de 7 colaboradores lá e de cá atendemos com mais cerca de 20 pessoas.

Quando começámos, achámos que teríamos mais volume de negócios do que temos, além disso o país não tem estado estável e o Real valoriza e desvaloriza muito. Continuamos no Brasil e vamos continuar a apostar, mas com mais ponderação.

Estamos no final de 2017, qual o balanço que fazem deste ano e quais as perspetivas da Noesis para 2018, quer no mercado nacional quer nos mercados externos?

NP – Vamos ficar naquilo que expectávamos, acima dos 30 milhões de euros de faturação. Para o ano estamos à espera de crescimentos de 15%, em linha com o que tem acontecido em outros anos. Internacionalmente, 2018 é um ano em que vamos querer passar daqueles 15% para 20%. É uma aposta concreta em crescer lá fora. Nos EUA queremos começar bem e na Holanda estamos a falar de aumentos de 30 a 40%.

Quais foram os marcos que gostaria de destacar em 2017?

NP – Em ES, destaco o 4Donations que fizemos para o Save the Children e que pode ser usada para organizações sem fins lucrativos. Já em AS, a parceria com a OutSystems e o prémio Partner of the Year. Do lado de QM, sem dúvida que um dos grandes passos foi a tecnologia dos testes automáticos que anunciámos ao mercado, que teve uma tração que não esperávamos e superou as nossas expetativas. Em ERP, o marco foi a parceria com o Celonis, uma ferramenta muito evoluída que trouxe muita inovação. O Celonis é para grandes empresas que tenham muitos processos e o que faz é analisar e ver que pontos podem ser melhorados. É uma inteligência artificial que vai analisar comportamentos humanos, processuais, etc. e depois vai dizer que com determinada alteração podem vir a não gastar 2,5 milhões de euros, por exemplo. Estamos muito contentes e somos o primeiro parceiro da Celonis em Portugal. Em BI, o marco foi a parceria com a Cloudera. Este ano foi o ano de preparação e para o ano antevejo que vai ser uma grande aposta da Noesis com Big Data. Em Infraestruturas, foi um ano de grande alteração em que mudamos a estrutura interna, foi também de preparação para as cloud híbridas. Desenvolvemos o Cloud-in-the-Box by Noesis, uma solução de cloud híbrida em que o cliente chega, liga e tem, sem mais custos adicionais, uma cloud.  Este pacote é inovador e não existe cá, basicamente é um computador com appliances que criam uma cloud.  Em Espanha, foi muito bem-recebido e está a ser divulgado pela HP.  

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