Transportes: o foco tem de incidir no passageiro

Mobilidade

O setor dos transportes em Portugal atravessa um período de constante mutação. Também as mudanças no setor não fugiram à discussão no Congresso das Comunicações. Antes do início da sessão, foi tempo de o Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Sérgio Monteiro, dar a sua visão sobre o estado do setor. Em primeiro

O setor dos transportes em Portugal atravessa um período de constante mutação. Também as mudanças no setor não fugiram à discussão no Congresso das Comunicações. Antes do início da sessão, foi tempo de o Secretário de Estado das Infraestruturas, Transportes e Comunicações, Sérgio Monteiro, dar a sua visão sobre o estado do setor.

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Em primeiro lugar, destacou a importância de pôr fim ao estigma dos transportes públicos. Sérgio Monteiro afirmou, perante o Grande Auditório do CCB, que uma parte dos portugueses ainda acha que viajar em transportes públicos é para pessoas com menos recursos económicos. Para o Secretário de Estado mais afeto ao setor, os transportes públicos permitem a “utilização do pouco tempo disponível”, de uma forma útil. Trocando a viatura própria por transportes como o metro, o comboio ou autocarro, é possível aproveitar o tempo da viagem, que poderia ser visto como um tempo “morto” ou inútil, para desenvolver outras atividades. Para além disso, foi também destacada a vantagem dos transportes, no sentido em que dão a possibilidade aos seus utilizadores de evitar situações de stress, como aquelas que surgem associadas às filas de trânsito.

Finda a intervenção de Sérgio Monteiro, foi tempo de dar início à discussão entre o painel de oradores. A sessão moderada por Ana Torres Pereira, jornalista do Jornal de Negócios – que não se coibiu de fazer as perguntas mais difíceis – contou com a presença de Fernando Pinto, presidente da TAP; António Ramalho, presidente das Estradas de Portugal; José Silva Rodrigues, assessor de administração do Grupo Barraqueiro; o presidente da CP, Manuel Queiró e Vasco de Mello, presidente da Brisa.

Com mais de 16 mil quilómetros de estradas em Portugal, António Ramalho realça a vantagem da capacidade de sensorização da infraestrutura, que dá a possibilidade de detetar quaisquer problemas nas estradas. Com a passagem do contrato de outsourcing para smartsourcing, foi possível poupar uma significativa quantia de dinheiro: a “previsão apontava para um custo de sete mil euros por quilómetro. Atualmente, a previsão é de um custo de dois mil euros por quilómetro”, elucidou.

José Silva Rodrigues, representante da Barraqueiro, diz que só recentemente se começou a mudar o paradigma das transportadoras. “O foco no cliente é relativamente novo para as empresas de transporte.” Para o orador, a troca do automóvel pelo transporte público é um processo que ainda demora tempo. A modernização das frotas permite uma melhoria no desempenho e poupança, mas ainda não é isso que vai fazer com que a mudança seja acelerada.

“A deslocação ferroviária em Portugal não corresponde à média europeia”, afirma Manuel Queiró, da CP. Mais uma vez, foi realçada a baixa taxa de utilização, comparativamente a outros países europeus. Outro ponto importante da intervenção do presidente da CP foram os empasses e constrangimentos do setor ferroviário. Como exemplo, usou a falta de material circulante da CP, que não permite dar resposta às necessidades dos consumidores nas deslocações de longo curso. E foi neste aspeto da intervenção que surgiu o assunto da concorrência dos meios aéreos na sessão.

Nos últimos tempos, a transportadora aérea de baixo custo Ryanair tem vindo a conquistar cada vez mais clientes. Alguns deles, clientes da TAP, até. A transportadora aérea nacional esteve representada no painel por Fernando Pinto. “A ligação entre Lisboa e Porto não é muito interessante para o transporte aéreo. A ameaça do TGV faz com que a ligação possa ser tão rápida, que se torne desinteressante para o passageiro”, conclui, quando questionado sobre o aumento de procura da ligação entre as duas cidades, em ligações da low-cost.

Mas, acima de tudo, o ponto comum entre as diversas intervenções foi unânime: é necessário que todas as modalidades se centrem no utilizador de transportes. “O foco tem estar no cliente”, diz Vasco de Mello, da Brisa. “A prioridade tem de passar pelo investimento.”
Será possível competir, já que todas as modalidades têm objetivo comum – o transporte de pessoas, de A para B? Manuel Queiró é peremptório: “em meio urbano, é impossível competir.” A resposta pode passar, então, pela colaboração entre modalidades, tendo sempre em conta que é importante tornar os transportes mais atraentes para o consumidor, para que, no futuro, o transporte próprio possa dar lugar ao transporte coletivo.


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