Portugal tem condições para se tornar num hub de informação

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O nome é familiar ao mundo das Tecnologias da Informação. Carlos Lacerda esteve desde sempre ligado à Microsoft, casa que o promoveu durante quase dez anos em destinos internacionais. O último bastante longínquo: Kuala Lumpur. Mas Carlos Lacerda está de volta ao seu país. Desta vez pelas mãos da SAP, um gigante de software germânico,

O nome é familiar ao mundo das Tecnologias da Informação. Carlos Lacerda esteve desde sempre ligado à Microsoft, casa que o promoveu durante quase dez anos em destinos internacionais. O último bastante longínquo: Kuala Lumpur. Mas Carlos Lacerda está de volta ao seu país. Desta vez pelas mãos da SAP, um gigante de software germânico, que lhe propôs vir dirigir os destinos do negócio português. E apesar de emigrante de “luxo”, com tudo menos uma mala de cartão, o novo diretor-geral da SAP Portugal confessa, numa entrevista que extravasa em tudo as tecnologias, as saudades que teve de casa. Do país. Da Europa. E agora, diz, sente-se a namorar novamente as terras lusas. “Quase vejo como espírito de missão ajudar a Administração Pública a ter mais e melhores instrumentos de controlo”. E sente Portugal mais saudável.

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Após quase uma década fora de Portugal em experiências internacionais, volta ao seu país. Saiu como homem da Microsoft, entra pela mão da SAP, como diretor-geral. O que o fez voltar?

Um conjunto de fatores. Vou ser muito sincero consigo, quando fui para a Microsoft Malásia fui com a minha família. As coisas estavam a correr muto bem e a empresa estava com uns crescimentos muito interessantes naquela geografia. Só que… em seis meses morre o meu pai e a minha mãe. Tomei a decisão de voltar a casa antes da morte da minha mãe, para chegar ainda a tempo de a apoiar… e já não consegui. Cheguei a Portugal em dezembro. Ela morreu em novembro. Esse foi o grande motivo.

E porquê a SAP?

Porque é líder de mercado, é a maior companhia de software europeia. Numa altura em que eu procurava regressar a Portugal, ter uma oportunidade destas é de agarrar com toda a força.

Mas porque não Microsoft, a casa onde “cresceu”?

Porque a proposta era para Espanha. E eu queria mesmo voltar a casa. Quero estar em Portugal, sinto saudades do país. A Microsoft em Portugal não tinha lugar disponível – tem uma pessoa ótima à frente do negócio – e havia a oportunidade da SAP. Quando comecei a falar com eles comecei a entusiasmar-me com tudo o que estava acontecer. E acho que pelo tipo de produtos que a SAP tem e pela fase que o país está a passar há uma conjugação de fatores que me fazem acreditar que eu posso criar impacto. Porque basicamente a SAP ajuda as organizações a melhor gerirem os seus negócios e atividades. E numa altura em que o país começa a dar sinais de recuperação, numa altura em que se começa a ultrapassar uma fase menos boa, acho que podemos marcar a diferença. Logo, estar na maior companhia europeia e a maior do mundo na área das aplicações de negócio … não podia estar melhor.

Como é voltar? Como é voltar a um mercado pequeno quando comparado com os que geriu nas suas incursões internacionais? Somos um país de pequenos negócios, de micro negócios…

Na Malásia, por exemplo, a abertura dos CEO, do primeiro-ministro ou de um rei é muito grande. Têm uma posição de muita humildade, característico das pessoas do sudoeste asiático. Mas essa humildade não lhes tira o facto de serem extremamente competentes e muto bem formadas, não só de carácter mas academicamente. Por exemplo, a Malásia tem um programa no qual se identificam os melhores alunos que são encaminhados para escolas especiais para lhes dar uma maior oportunidade. E o próprio governo malaio paga as suas licenciaturas em Oxford, em Harvard, em Cambridge… com a contrapartida de depois os colocar ou em lugares da administração pública ou como CEO das empresas onde o estado tem intervenção. Mas a minha primeira reação quando chego a Portugal é fantástica. A primeira, a segunda, a terceira… são todas fantásticas porque tinha muitas saudades de aqui estar. Tinha saudades de contribuir com o meu trabalho para o desenvolvimento do país onde tenho as minhas referências, onde nasceu a minha família. Isto é muito importante.

É um sentimento que nunca nos larga?

Não. Apesar de na Ásia, mais do que ser português, a sensação que se tem é de ser europeu. Depois, ser cidadão da União Europeia, que é muito importante, e depois é ser português. Em Kuala Lumpur existem cerca de 200 famílias portuguesas a lá viver. Reuníamo-nos todas as sextas-feiras pelo que o sentido de comunidade é muito grande, até porque não existe embaixada. Temos de nos unir e entreajudar, até quando há problemas. Tive situações em que estava com a minha família a jantar numa esplanada e pediam-nos: posso-me sentar um bocadinho, é que já me apetecia ouvir falar português. Aliás, quando vínhamos de férias e aterrávamos em Londres, depois embarcar num avião da TAP onde se fala português… já estávamos em casa.

Mas há uma diferença de dimensão.

Claro. Há uma diferença de dimensão até porque a Malásia tem características muito distintas do nosso país, tem um crescimento acelerado, o desemprego é muito baixo – 2,8% a nível nacional, sendo que na zona de Kuala Lumpur não tem desemprego – e na área das Tecnologias nem sequer existe. Há poucos recursos e uma curiosidade é que os portugueses na Malásia são muito bem vistos. O Afonso Albuquerque é dado na história da Malásia porque tivemos Malaca. Vê-se muitos malaios com nomes como Maria do Rosário ou Maria de Fátima. Mesmo palavras como manteiga, banco, camisa, armário ou mesa… são iguais. Há uma proximidade cultural que acho que devíamos explorar. Depois, a Malásia tem muitos recursos naturais, tem uma produção de petróleo e gás natural muito forte, tem a Petronas (mais conhecida por patrocinar a Fórmula 1), que é uma das maiores empresas do sudoeste asiático e tem investimentos muito grandes à volta deste setor. A Malásia tem cerca de 28 milhões de habitantes, quase três vezes Portugal. O que noto é que as empresas são realmente maiores mas a atitude é muito mais humilde e com maior abertura.

E que impacto tem isso numa multinacional?

Permite que as multinacionais sintam um terreno mais fértil para investir. E isso é muito importante fazer. Em Portugal nós temos muitas dessas características. Temos uma ótima educação de base – mesmo com todas as questões internas que temos, quando passamos muito tempo fora valorizamos não apenas o clima, a comida, a segurança e as pessoas –, temos boas infraestruturas, temos cultura. Estou a redescobrir quer o Porto quer Lisboa e acho uma diferença imensa, para melhor. A qualidade do nosso ensino é boa, as pessoas saem com uma boa formação e com atitude. Somos de uma forma geral trabalhadores e sérios. E têm uma boa imagem nossa.

Mas qual é a real oportunidade de uma empresa como a SAP num mercado de microempresas?

É uma oportunidade incrível. É ajudar estas empresas a globalizarem-se e internacionalizarem-se, dar-lhes ferramentas de gestão que lhes permita ter um crescimento muito mais controlado. É a grande oportunidade. E trazer investimentos, como o caso do nearshore center, em que há dois anos tínhamos 30 pessoas e agora temos mais de 200 e esperamos, ainda este ano, ultrapassar as 300.

As pessoas já não têm “medo” do nome SAP? As pequenas e médias empresas já pensam em SAP? Já vêm ter com vocês ou ainda andam a provar ao mercado que também podem e sabem endereçar empresas de menor dimensão?

Hoje, temos em Portugal cerca de 5600 clientes. Cerca de 68% são pequenas e médias empresas. Hoje, mesmo em todo o mundo, o maior universo de clientes da SAP são pequenas e médias estruturas. Se visitar as nossas instalações no Lagoas Park vai ver as paredes todas cheias de empresas de pequena ou média dimensão que são clientes SAP.

Mas o que é uma empresa de média dimensão para a SAP?

Pode ser uma empresa com poucos empregados mas que pode faturar bastante, ou uma empresa com muitos empregados, ou uma empresa de referência. Há várias empresas de média dimensão que não estão entre as 100 maiores, estão muito abaixo, e que utilizam SAP.

O que estão a fazer que permita ser uma solução para esse tipo de empresas?

Primeiro, as pessoas associam a SAP ao ERP. Hoje, o ERP não chega a 30% da SAP, temos muitas outras coisas. Depois, associam a SAP a grandes requisitos de máquina, de infraestrutura… Como sabe, com a cloud, o que as empresas têm de contratar é um serviço, uma subscrição. E se me permitir a comparação, aplica-se à SAP e a todas as empresas de tecnologia. Se fizer uma analogia com a eletricidade, nos tempos dos nossos avós havia a tendência para ter um gerador em casa porque a rede de distribuição elétrica era deficiente, falhava e em alguns casos ainda estava a ser construída. A mesma coisa se passa hoje com os servidores de grande dimensão ou com os grandes recursos de máquina. As pessoas ainda tendem a ter esses servidores dentro das empresas mas, como sabe, isto está a mudar rapidamente.

Portugal tem uma boa infraestrutura para isso?

Temos uma excelente infraestrutura. A única coisa que se pode dizer é que os preços das comunicações em Portugal ainda estão um pouco altos. É um tema que temos de discutir enquanto sociedade. Essa infraestrutura vai permitir que estas empresas que necessitam de ter muito mais instrumentos de controlo de gestão os possam ter utilizando clouds públicas e tirando partido disso.

Eu compreendo, os players compreendem, o mercado, as empresas compreendem. Mas então porque é que não se acelera o investimento na cloud? As empresas já estão efetivamente a investir?

A vida não é binária. É consensual que a maioria dos servidores são vendidos para empresas como a Amazon, a Google, a Microsoft, a IBM e a SAP. Estes investimentos fazem-se porque há adesão e há uma enorme atração. Portugal, por exemplo, tem todas as condições para se tornar num hub de informação. Mas deve investir forte nisso. Em Portugal somos membros de uma comunidade potente que é a União Europeia. Hoje, tanto faz os dados estarem em Portugal como na Alemanha, como na Holanda. Aliás, posso dizer-lhe que em países geograficamente muito confinados, como é o caso de Portugal, da Suíça ou do Luxemburgo, quando se quer ter resistência à falha, resiliência nos sistemas… tem que se ter dois sistemas. Mesmo que o data centre esteja em Portugal, haverá sempre outro. No curto prazo, iremos observar que grandes grupos económicos, que tenham consistência não só económica como política, como é o caso da União Europeia, tenderão a gerir de forma muito otimizada os seus recursos. Não só porque têm acesso a melhor tecnologia, mais valor, mas porque é uma forma muito mais racional de gerir recursos muito onerosos. E isso vai impulsionar a economia.

O ano passado foi um excelente ano para a SAP. Onde vão buscar este ano o negócio?

Só conseguimos crescer quando o valor que é aportado às empresas nossas clientes é muito grande. Hoje, tenho um sentimento de alguma preocupação relativamente ao facto de olharem para a SAP como uma empresa muito cara, muito grande, pouco flexível e arrogante, com manutenção onerosa. Nos últimos meses falei com muitos CEO e é esse o sentimento, apesar do excelente trabalho que os meus colegas fizeram e continuam a fazer. Mas gostava de construir em Portugal uma obsessão por clientes e parceiros. Gostava de alterar esta perceção de inflexibilidade, de complexidade. Precisamos ser humildes e ouvir mais do que falar. E agir sobre o feedback que nos dão. Como vamos crescer? Sendo mais obcecados por estar junto de um cliente, sermos mais obcecados por suportar corretamente os parceiros.

É a área de cloud que lhe vai dar o negócio, este ano?

Não só. Lançamos uma nova versão do ERP e há sempre um claro “boom” nas vendas. Mas quero comunicar ao mercado e aos clientes que a migração de um sistema da versão 3 para o S4/Hana é gratuita até ao dia 30 de setembro. E gostava de ver empresas portuguesas a fazerem esta migração.

Mas se é gratuita, onde vão fazer dinheiro?

Na migração da base de dados. Estamos a migrar as bases existentes para Hana, que foi onde tivemos um crescimento exponencial. E é importante que mudem pelos conceitos que hoje dominam o mercado: Internet das Coisas, Big Data, Mobilidade, Redes Sociais e Cloud.

Ainda sente o país deprimido?

Não sinto já uma dose de depressão e pessimismo que era o que senti quando saí da última vez. Mesmo na Administração Pública. Ainda tenho alguma preocupação em alguns atrasos contratuais, a máquina ainda não está ágil. Mas há vontade e sobretudo um reconhecimento da situação e a vontade de alterar. A utilização da cloud para agilizar algumas questões da Administração Pública é ótima. É evidente que quando falamos de temas mais sensíveis, como os financeiros, as pessoas querem ter muito mais controlo e não se sentem à vontade para os ter na cloud. Mas penso que gradualmente, e quando começar a haver efetivamente, melhores experiências, também isso vai ser alterado.

A Administração Pública continua a ser um cliente interessante?

Continua. E do que eu conhecia penso que está a mudar a sua atitude. Vejo pessoas com visão, que sabem quais são os problemas e querem fazer alterações. A SAP está obviamente interessada em ajudar. Aliás eu, agora regressado a Portugal, quase vejo como espírito de missão ajudar a Administração Pública a ter mais instrumentos de controlo. Gostava de fazer algo que tive algum impacto na AP portuguesa.

Regressar a Portugal, pelo que conta, está a ser satisfatório. Já está novamente integrado?

Ainda não. Estou a refazer a minha rede de contactos, a conhecer uma série nova de pessoas. Nem sequer ainda estamos – eu, a minha mulher, as minhas filhas – adaptados à vida em Portuga. Estamos em fase de transição. Não está a ser doloroso, a minha costuma dizer que eu estou ainda um bocado zen. Estou a adorar estar outra vez com as pessoas com quem tenho afinidades culturais. Quando se passa tempo fora e tão longe como eu, todos os portugueses são amigos. Espero não me vir a dececionar, depois de passar esta fase de namoro, porque acredito que o país está cada vez melhor. Sinto isso. É bom viver em Portugal. Sinto Portugal mais saudável.


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