Outsystems: “Somos altamente competitivos, agressivos e inovadores”

Negócios

Entrevistar Paulo Rosado, fundador e CEO da Outsystems, é um bálsamo para a alma de um jornalista. O executivo não tenta fugir às perguntas, não faz cedências ao politicamente correto e consegue exprimir os seus alargados conhecimentos tecnológicos e de negócio num discurso acessível a todos. De origem portuguesa, a Outsystems é hoje uma empresa

Entrevistar Paulo Rosado, fundador e CEO da Outsystems, é um bálsamo para a alma de um jornalista. O executivo não tenta fugir às perguntas, não faz cedências ao politicamente correto e consegue exprimir os seus alargados conhecimentos tecnológicos e de negócio num discurso acessível a todos. De origem portuguesa, a Outsystems é hoje uma empresa do mundo. Tem escritórios em diversos pontos do globo, destaca-se pela sua oferta de Platform-as-a-Service e mostra a ambição de chegar ainda mais longe. Paulo Rosado acredita que a sua organização esteve muitos anos à frente do mercado e que agora é altura de colher os frutos do complexo trabalho desenvolvido nos anos anteriores. Sempre com os olhos postos no futuro.

Paulo Rosado da Outsystems (27)

B!T: O NextStep deste ano teve três grandes temas em destaque: Mobile, Cloud e Big Data. Na sua opinião, na prática, esses temas já fazem parte da vida das empresas ou ainda é algo que apenas as companhias mais inovadoras adotam, enquanto as outras ‘esperam para ver’?

Paulo Rosado: Depende das regiões do mundo. Acho que todos esses três itens estão a explodir, mas a cloud, por exemplo, é basicamente inexistente em Portugal. E talvez seja aquele onde existe uma maior diferença entre os Estados Unidos e a média dos restantes países. Nos Estados Unidos, em alguns casos, a cloud é mais de 50% dos IT nas empresas pequenas e mid-size; nas maiores é menor. É o trend com uma penetração maior.

Em Portugal fala-se imenso em cloud em tudo o que é evento relacionado com TI. O que é que falta para a concretização?

A primeira geração de sistemas de cloud são sistemas de Software-as-a-Service, portanto, são aplicações que correm diretamente da Internet. E, à exceção de duas ou três grandes marcas, a maioria desses provedores são pequenos e estão concentrados nos Estados Unidos, pelo que temos muito menos ofertas em Portugal de software para empresas portuguesas na cloud. Como há menos oferta, as pessoas também têm menos atração para migrarem. Mas mesmo nós, ao nosso nível, temos uma cloud que não é dependente da indústria; em Portugal, os nossos clientes preferem pegar na plataforma e instalá-la dentro. A nossa plataforma é muito simples, tem uma instalação de uma manhã e depois é tão simples operá-la dentro da firewall como na cloud. Como é igual, não há grande razão para ir para a cloud, porque se é tão simples e barato de operar dentro do data center, depois há vantagens em tê-la aí, nomeadamente a nível de segurança, porque os dados não precisam de migrar cá para fora. Portanto, em Portugal acabamos, basicamente, por não ter ninguém na cloud. Os nossos clientes também são todos os clientes grandes aqui em Portugal – quanto maior o cliente, menos cloud tem, porque tem mais capacidade de suporte de infraestrutura própria.

O outro fenómeno que abordámos no NextStep é o Mobile e está a sentir-se essa pressão em todo o mundo. Talvez seja o que é mais homogéneo. Mas não é apenas devido ao aparecimento de telemóveis, é também a pressão que o pessoal de negócio dentro das empresas faz sobre o IT para lhe dar aplicações parecidas com as que eles têm na sua vida pessoal. Agora depende muito dos países – há países que são muito mais agressivos do ponto de vista de aplicações móveis. Em Portugal, por exemplo, as seguradoras estão quase à frente – as seguradoras, em Portugal, deram um salto muito grande: deixaram de ser das indústrias mais retrógradas em termos de IT para estar a liderar. Caixa Seguros, Liberty e Lusitânia são três clientes nossos que estão a fazer coisas extraordinárias, mesmo a nível mundial.

Em relação a Big Data, em Portugal, não se vê nada. Mas é basicamente por todo o lado… Atualmente, as empresas estão a usar cada vez mais serviços de Big Data já empacotados – é isso que se vê mais, serviços de reutilização de dados que são providenciadas por empresas. São tudo tendências a que é impossível fugir. A cloud talvez seja aquela que é até menos relevante, mas as outras duas são inexoráveis, têm de ser endereçados pelos IT.

Apresentou também a Platform 9 no NextStep. Que impacto espera que ela venha a ter no mercado?

A Plataforma 9 tem dois ou três conceitos que, para nós, são importantes. Um deles é o conceito de abertura – é mais um passo grande na direção de suportar a comunidade. Lançámos uma API e a capacidade de REST que permite, basicamente, à comunidade ligar-se a milhares de provedores cloud. E investimos muito em tornar aquilo muito simples. Muito sofisticado, mas muito simples. Não se nota a sofisticação, mas é um trabalho descomunal de engenhos que está por baixo daquilo. Conseguimos, basicamente, apontar a qualquer coisa que esteja na cloud e, passado 5 minutos, temos uma aplicação ligada com um sistema qualquer. Lançámos também o Database API, a API de bases de dados, e isto é a primeira leva de funcionalidade de abertura da plataforma para uma série de direções que queremos levar. Estas pareceram-nas as mais críticas e que tínhamos de endereçar agora.

A Outsystems já está em muitas geografias. É vosso objetivo aumentar a percentagem do negócio que tem origem internacional?

Sim. Somos market leaders em Portugal e dominamos basicamente tudo o que mexe. Isso tem provocado que, como nós somos um standard, de cada vez que há um CIO ou um diretor de IT que quer ir para um sítio e fazer uma mudança drástica num ano, só tem uma solução – utilizar Outsystems. Se não levar Outsystems, leva 3 a 5 anos, não há hipótese. Então, de cada vez que temos uma alteração de sítio para uma das nossas mais de 100 referências ou de cada vez que se desloca para outra empresa, leva a Outsystems. Nesta altura, é a ferramenta necessária para se conseguir resultados muito rápidos.

Pessoalmente, tenho ideia que o ADN da Outsystems está muito ligado à irreverência e à capacidade pensar ‘out of the box’. Acha que o mercado partilha esta ideia? E isso diferencia-vos positivamente ou, por vezes, também vos custa alguns negócios?

Não, não custa. Na irreverência há um pouco de infantilidade, às vezes, e nós não temos nada disso. Acho que a infantilidade é que, muitas vezes, afasta os clientes. Nós não somos engraçadinhos nem cómicos – não temos é paciência para a fraude, para a complexidade, para o impostor, para coisas que estão obviamente mal, para modelos em que a indústria de IT propositadamente não resolve, para complexidade para ir buscar mais dinheiro ilicitamente… Não concordamos com isso e somos muito irreverentes em relação a isso. O que acaba por sobressair é que temos uma conversa muito simples e muito racional, mas tão básica que parece que não pode ser verdade – porque, se fosse verdade, já outros estariam a fazê-lo. O que as pessoas não percebem é que temos uma conversa muito simples, mas é um problema muito complexo – e a solução é complexa e precisa de muitas partes que têm de estar todas integradas. É isso que temos na plataforma. A razão pela qual a plataforma da Outsystems é tão grande é porque, se nós tirarmos um daqueles mecanismos, já não conseguimos resolver o problema. Fundamentalmente, é o problema da mudança de software – é um problema muito complexo e nunca houve grande vontade de o resolver, mas quem o resolveu resolveu-o mal, resolveu sempre só um bocado. E resolver um bocado é resolver nada. É um problema complexo, porque é daqueles que é um tudo ou nada: ou se resolve tudo ou, se tentamos resolver só uma peça, não resolvemos nada, porque não mudamos as coisas na sua estrutura. O que a Outsystems conseguiu fazer foi resolver o problema todo, com um produto que levou muitos anos a construir, porque é muito complexo.

E, nesta altura, aparecemos basicamente sem concorrência. Não é como se Portugal estivesse fechado do mundo, mas aqui não há mesmo nada, não há alternativa. Nos Estados Unidos, nós não nos expandimos mais depressa simplesmente porque a marca não é suficientemente conhecida ainda. Num país como Portugal, em que toda a gente conhece a Outsystems, só não compra Outsystems quem é teimoso ou tem algo a perder com simplicidade e rapidez.

Tiveram no evento um cliente a confessar que quando entrou para a empresa não iria renovar o contrato com a Outsystems e que depois pôs a teimosia de lado…

Aquilo acontece-nos muito no Reino Unido. Os ingleses são muito céticos… Não se esqueça de uma coisa, é um bocadinho uma questão cultural, mas toda a indústria está um pouco assim – estes clientes estão muito ‘queimados’, são 20 anos de Accenture, Oracle, IBM e até de Microsoft a prometer e depois a nunca ir suficientemente longe na resolução do problema. E depois o problema não muda, o que muda é a introdução de uma necessidade nova, como, por exemplo, mobile. Nós já tínhamos suporte para smartphones ou tablets há 3 anos atrás. Se nós não tivéssemos corrido muito rápido para colocar suporte para smartphones, hoje em dia, a nossa capacidade para lidar com o problema da mudança seria irrelevante, porque não estávamos a conseguir montar os sistemas que os clientes querem. Parte da nossa capacidade também é conseguirmos ver a cerca de 2 anos de distância e ir adicionando coisas ao produto para quando o trend aparece nós já o suportarmos. Acho que este é que é o grande diferenciador da Outsystems e é por isso que os nossos concorrentes andam sempre atrás de nós. Temos dois ou três concorrentes que copiam tudo o que a gente faz – literalmente tudo… E, às vezes, copiam coisas erradas, porque a gente também se engana.

Uma das questões levantada no painel de debate foi quando o Paulo referiu as dificuldades que aquelas grandes empresas dos anos 90, como a IBM e Oracle, por exemplo, estão a sentir atualmente e um dos membros do painel comentou, em tom de brincadeira, que uma das soluções para o problema delas era comprarem a Outsystems. Já pensou nessa hipótese? Recebeu ofertas nesse sentido?

Estamos sempre a ter ofertas, mas isso é normal. Empresas bem sucedidas, a crescerem e com produtos deste género – faz parte… No entanto, na Outsystems temos uma oportunidade muito grande. Estarmos a sair nesta altura era estar a perder a oportunidade, porque estamos numa altura em que isto é fácil. Isto já foi muito difícil, estivemos muitos anos à frente do mercado e lançámos um produto que estava muitos anos à frente do seu tempo. Esses tempos foram muito difíceis, porque era como vender o elixir da juventude enquanto as pessoas pensavam “tomo isto e morro”… Foi uma luta constante. Estávamos demasiadamente à frente do mercado, o nosso produto era demasiado visionário, só que agora, finalmente, a onda apanhou-nos. E apanhou-nos sozinhos, porque o produto é tão difícil que toda a gente que está a vir atrás está com aquele modelo start-up de produtos pequenos. De vez em quando, encontramos uns com clientes e dizimamos tudo o que é concorrência. Agora estamos numa situação em que isto é fácil. Isto agora é giro – porquê vender?

E como vê a Outsystems no futuro?

O futuro é igual ao presente. O futuro só seria mau se a gente o deixasse passar. Por exemplo, ao nível da Plataforma 9, mais de 60% de todo o R&D que foi investido no último ano não apareceu nesta versão – são coisas que estamos a preparar para o futuro. Há coisas que estamos a introduzir na 9 que são ‘must have’ agora, mas nós temos uma visão muito mais sofisticada e muito mais drástica do que é que vão ser este tipo de sistemas no futuro. Portanto, estamos a preparar-nos agora, que temos tempo, para mudar uma série de coisas que nos vão dar essa competitividade para o futuro. Por exemplo, agora aparecemos com suporte para estas bases de dados todas – é um trabalho que andamos a fazer há 18 meses, aquilo foi muito difícil e agora dá a impressão que aparece na altura certa, mas aparece na altura certa porque temos estado a fazer esse investimento. E o mesmo se está a passar agora. Portanto, temos alguma confiança de que nos movemos muito rápido e cometemos poucos erros em termos de posicionamento. Acreditamos no que estamos a fazer agora e na forma como vemos o mundo daqui a 1 ano e meio ou 2 anos – mais do que isso é difícil. Estamos à espera de uma série de disrupções que não sabemos exatamente quando é que vão apanhar, mas estamos à espera delas: as interfaces, não sabemos exatamente o que vai acontecer com os carros auto-guiados – que vai ser uma disrupção social descomunal, vai mudar o mundo… – estas coisas acontecem nesta altura em processos de 3 anos, enquanto dantes eram décadas. Agora a cada 3 anos acontece uma disrupção. O mundo está todo a ficar mais comprimido. Acompanhamos esse tipo de coisa, temos dinheiro – estamos financeiramente muito fortes –, somos altamente competitivos e agressivos, e depois somos muito inovadores. Também fazemos erros, mas recuperamos muito rapidamente. Nesta altura, estamos bem posicionados.


Clique para ler a bio do autor  Clique para fechar a bio do autor