Os Media no Digital: uns adaptam-se, outros não

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O jornalismo é uma indústria que está hoje a sofrer profundas mutações. A prensa de Guttenberg foi substituída por computadores e dispositivos móveis, o papel está a ser ameaçado pelo digital e as redações são agora um misto de jornalistas e profissionais das Tecnologias de Informação. No entanto, nem todas as publicações estão a conseguir navegar na onda online, e muitos modelos de negócio estão a tornar-se obsoletos, as receitas estão a perder volume e as bases de leitores a ser redesenhadas. O Digital Media Forum Portugal, decorrido ontem em Lisboa, pretendeu trazer para a mesa os desafios gerados pela dimensão digital, sem, ao mesmo tempo, ignorar as oportunidades a que ela dá vida.

O mercado digital em Portugal está a crescer a olhos vistos, em consonância com o que acontece no resto do mundo. Esta mudança de rumo é transversal a todos os setores de atividade, a todos os negócios. E a Comunicação Social não é exceção.

O presidente da ACEPI – Associação para a Economia Digital, Alexandre Nilo Fonseca, acredita que a transformação digital é incontornável. O smartphone é hoje o principal meio de consumo de informação, o que denota, sem sombra de dúvida, o papel determinante que os dispositivos móveis terão no nascimento de um novo conceito de media. Também o negócio da publicidade está a reorientar-se. O executivo afirmou que, em 2017, a publicidade online será alvo de 30 por cento do investimento feito a nível global. “É uma transformação que vamos observar nos próximos anos”, declara Nilo Fonseca.

Apesar de a crescente hegemonia do Digital ser um facto conhecido por todos, as consequências por ele provocadas (positivas ou negativas) podem ainda não estar bem clara e cimentadas nas mentes dos atores do mercado dos media. O Secretário de Estado Adjunto do Ministro Adjunto e do Desenvolvimento Regional, Pedro Lomba, disse que é necessária uma mais ampla e mais profunda reflexão acerca dos desafios e das oportunidades que se colocam hoje defronte das publicações noticiosas nacionais, fruto da proliferação dos meios digitais.

No entanto, o Secretário de Estado Ajunto não pôde deixar de referir que existe uma preocupante falta de transparência no mercado da publicidade digital e na medição do tráfego online, o que impacta negativamente a capacidade de subsistência dos jornais e revistas que procuram conquistar um espaço na esfera digital.

O futuro da Comunicação Social, de acordo com Pedro Lomba, passa pela fomentação da criatividade e da inovação, pela captação de talento jovem e digital, que ajudará as publicações a alcançar o próximo patamar de evolução do negócio.

O representante do Governo mostrou-se confiante de que os augúrios sobre a morte da Comunicação Social perante o digital e a Internet são fruto do exagero.

media online

As publicações impressas e as publicações digitais são duas extremidades de uma mesma corda, segundo Earl Wilkinson, diretor da INMA, uma associação internacional de meios noticiosos. O responsável disse que as duas extremidades ardem em direção uma à outra, e é quando se encontrarem que nascerá a nova Comunicação Social, os media do futuro.

O orador norte-americano disse que as empresas da comunicação social impressa procuram tornar-se mais data-based, ou seja, tirar maior partido do potencial dos dados digitais para potenciar o negócio. No revés da medalha, os media digitais almejam as audiências fiéis e robustas dos congéneres do papel. “Os media digitais constroem os seus impérios sobre as audiências dos media impressos”, declarou Wilkinson.

Apesar de os dois modelos coexistirem, as tendências apontam, inexoravelmente, para o predomínio do digital. E tendo em conta que a publicidade é o grande pilar que sustenta os media, os anunciantes vão, também eles, migrar para o digital, no encalço do seu público-alvo, o deixará os players da impressão desamparados.

Esta transformação, contudo, pode apenas ser executada através de uma mudança da cultura da empresa, da inclusão de talento jovem e de gestores com visão digital, e, como disse Wilkinson, estes últimos são escassos.

O consumo de informação “é cada vez mais uma experiência externa ao lar”, afirmou, evidenciando que os dispositivos móveis estão na vanguarda da reconfiguração do setor e que a adaptação aos novos hábitos de consumo é um elemento indispensável à sobrevivência do meio. Earl Wilkinson predisse que, até 2020, esta mudança ganhará corpo.

As redações na Era Digital

“A nossa relação com o leitor, quando estamos online, não é só mais próxima, é também mais honesta”, declarou David Dinis, diretor editorial do Observador, referindo-se à capacidade, cedida pelo digital, de responder em tempo real aos comentários, sugestões e críticas dos consumidores de conteúdos jornalísticos, num ambiente dinâmico.

Responsável por aquele que é um dos grandes fenómenos do jornalismo digital nacional, David Dinis afirmou que a pressão aumentou bastante sobre as redações e que decisões editoriais têm hoje de ser tomadas a cada minuto. A diretora editorial do portal Sapo, Rute Sousa Vasco, corroborou a intervenção do congénere, acrescentando que o digital veio trazer um sentido de urgência às redações muito superior ao de tempos passados.

redação

Pedro Santos Guerreiro, fundador do Jornal de Negócios e diretor editorial do Expresso Diário, descreve as redações de hoje como “multidisciplinares”, considerando que não são somente compostas por jornalistas, mas também por web designers, gestores de motores de busca, gestores de redes sociais e profissionais das Tecnologias de Informação.

Santos Guerreiro acredita que o perfil do jornalista mantém-se o mesmo, independentemente da multiplicidade crescente de meios de informação que se encontram ao nosso dispor nos dias correntes. Os profissionais da área devem, tal como antes, aspirar a ser veículos de informação credível e confirmada, que sirva os interesses do público a quem pretende chegar. David Dinis complementa, dizendo que “o jornalismo não deixa de ser jornalismo só porque as ferramentas mudaram”.

O fundador do Negócios afirmou que “não é verdade que as pessoas só lêem as primeiras três linhas” das notícias, e o colega do Observador acrescentou que são as peças mais extensas e mais densas que atraem um maior número de leitores.

Os media em Portugal: que futuro os aguarda?

O presidente do Conselho Administrativo da RTP, Gonçalo Reis, confessou que as novas tecnologias emergem como ameaças à emissora nacional, mas também acarretam oportunidades, permitindo alcançar os portugueses que se encontram além-fronteiras. No entanto, a RTP tem ainda um longo caminho pela frente, tendo em conta que somente dois por cento dos trabalhadores está dedicado à vertente online, mas a emissora faz tenções de aumentar o seu investimento na área, de acordo com o representante.

Luís Cabral, administrador da Media Capital Rádios, alegou que “a grande vantagem do digital é, sobretudo, a mobilidade”, referindo-se à filosofia que rege esta crescente tendência tecnológica: em qualquer lado, em qualquer altura.

No entanto, o gestor acredita que a preocupação central dos media deve ser a produção de conteúdos de qualidade, independentemente da plataforma que utilizam para os difundir. Luís Cabral mostrou descrença face à capacidade de sobrevivência dos media que queriam apoiar-se totalmente no digital. “Ninguém vive com as receitas do digital. Morríamos todos à fome!”.

O administrador da Impresa, José Freire, ecoou as palavras do responsável da Media Capital Rádios, dizendo que “produzir conteúdos cada vez melhores é fundamental” e que as receitas geradas no meio digital são ainda muito pouco significativas.

José Freire disse que a Comunicação Social cometeu erros no passado, e um dos maiores foi permitir o acesso gratuito à informação, ilustrando a crise dos media online com nomes como “Google” e “Facebook”.

Por sua vez, o administrador do Grupo R/COM, José Luís Ramos, vê os conteúdos como o “petróleo” dos órgãos de comunicação social. Contrariamente a alguns dos seus colegas, ele está confiante de que as plataformas online farão aumentar as audiências, designadamente de ouvintes da Rádio Renascença, sob a alçada do grupo que gere.

José Luís Ramos disse que é necessário explorar sinergias com media estrangeiros, a fim de se explorarem mercados mais férteis e de internacionalizar os conteúdos produzidos.

A vogal do Conselho de Administração do Público, Cristina Vicente Soares, garantiu que o jornal não procura conquistar audiências com o online. A gestora trouxe a debate o tema da distribuição, argumentando que os social media vieram tirar das mãos dos órgãos de comunicação social o controlo sobre a difusão dos seus próprios conteúdos e que são muitos os que estão interessados em distribuir mas poucos são os que estão dispostos a pagar.

Todos os administradores acordaram que é preciso fazer um esforço a nível europeu para combater os danos causados por plataformas avassaladoras como o Google, o Facebook e o Twitter. Ramos Pinheiro foi mais longe e apelou a uma regulação global da distribuição dos conteúdos, de forma a salvaguardar o valor dos mesmos. Ele diz que os leitores habituaram-se (e mal) a que os conteúdos sejam gratuitos na Internet.


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