“A nossa concorrência em Portugal já desapareceu”

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A bi4all, empresa especializada em Business Intelligence, comemora este ano uma década de atividade. Uma idade já respeitável quando falamos num mercado que tem tão de volátil como dinâmico como o das Tecnologias de Informação. José Oliveira, diretor-geral desta empresa portuguesa, admite que muito mudou. Nomeadamente a concorrência. “A nossa concorrência passou de empresas especializadas

A bi4all, empresa especializada em Business Intelligence, comemora este ano uma década de atividade. Uma idade já respeitável quando falamos num mercado que tem tão de volátil como dinâmico como o das Tecnologias de Informação. José Oliveira, diretor-geral desta empresa portuguesa, admite que muito mudou. Nomeadamente a concorrência. “A nossa concorrência passou de empresas especializadas no setor do Business Intelligence (BI), para empresas maioritariamente de outsourcing, ou microempresas compostas por consultores que saíram de organizações por diversos motivos, para fundarem empresas com estruturas pequenas e com capacidade técnica e conhecimentos insuficientes para poderem fazer um bom trabalho”.

José Oliveira, diretor-geral da bi4all
José Oliveira, diretor-geral da bi4all

B!T – Uma década é muito tempo, sobretudo num mercado tão dinâmico como o das Tecnologias de Informação. A bi4all é hoje uma empresa diferente?

José OliveiraSim, de facto tudo mudou nestes 10 anos de existência da empresa. A bi4all teve de crescer de acordo com o mercado e suas tendências. A adaptação da organização à realidade foi um dos fatores críticos de sucesso. O mercado mudou tanto nestes últimos anos que a maioria da nossa concorrência em Portugal de há 10 anos já desapareceu. Entretanto, a nossa concorrência passou de empresas especializadas no setor do Business Intelligence (BI), para empresas maioritariamente de Outsourcing, ou microempresas compostas por consultores que saíram de organizações por diversos motivos, para fundarem empresas com estruturas pequenas e com capacidade técnica e conhecimentos insuficientes para poderem fazer um bom trabalho. No final, e como tudo isto baralha o mercado, os clientes acham que fazem bons negócios trabalhando com essas pequenas estruturas ou com colaboradores em regime de outsourcing. O que se passa a seguir é óbvio. Projetos mal feitos, dinheiro deitado ao lixo, descredibilização do mercado e finalmente o encerramento de empresas de média estrutura porque os preços de aquisição dos serviços são tão baixos que não pagam os custos. O mercado passou a valorizar preço ao invés de qualidade. Na realidade pretende-se as duas coisas mas como calculam, tal não é possível. A bi4all continua a acreditar no princípio da especialização do setor como uma vantagem competitiva no mercado. Os nossos clientes reconhecem isso. A bi4all tem uma base instalada de mais de 200 clientes, só em Portugal. No mercado internacional contamos com cerca de 20 grandes contas.

B!T – Que balanço faz destes 10 anos?

JO – O balanço final não podia ser melhor. A bi4all cresceu sempre de forma estruturada. O único ano em que tivemos resultados menos positivos foi em 2010. Ano em que infelizmente houve um conjunto de situações pessoais que fizerem os líderes da organização não estarem tão atentos. No entanto, o ano de 2010 foi também o ano de viragem para a organização. Passámos de uma estrutura hierárquica assente nos três líderes da organização para uma estrutura mais distribuída em termos de responsabilidades. Nos últimos três anos (de 2011 a 2013) a bi4all cresceu em média 40% por ano. Ora, isso é de louvar num mercado cada vez mais competitivo e com tantas adversidades como o das SI/TI. Significa que conseguimos mudar de uma pequena estrutura de colaboradores, para uma estrutura já com alguma dimensão (cerca de 80 colaboradores).

B!T – De que forma estão a comemorar esta data?

JO – Iremos comemorar a data junto dos nossos clientes. São eles que nos dão o alento e a vontade de querer sempre mais e mais. Na última semana de outubro fizemos um cocktail no qual esteve presente desde o nosso primeiro cliente ao cliente com maior impacto do negócio.

B!T – Nesta década houve alguma decisão que tenha tomado que se tenha arrependido?

JO –  Sim, claro. Ninguém é perfeito e quando se trabalha no ramo das SI/TI é fácil tomarmos decisões menos boas por falta de informação. Um dos maiores erros que cometi foi no ano passado quando decidimos fazer um projeto em que o âmbito não estava bem definido por parte do cliente. Estas situações geralmente acontecem com frequência e são resolvidas antes sequer de haver projeto. Quando deixamos passar esse período só havendo bom senso é que se chega a bom porto. Outra das decisões que me arrependo amargamente foi quando entreguei uma das sucursais da organização a pessoas menos escrupulosas e pouco preparadas para o efeito. O resultado final foi catastrófico com impacto direto nos clientes e nos resultados dessa delegação.

B!T – O que mais o surpreendeu pela positiva e pela negativa em todo o vosso percurso?

JO – Pela positiva, claramente a componente das relações humanas. Hoje, a bi4all conta com cerca de 80 colaboradores e 200 clientes. A dinâmica existente na organização e com os clientes leva a crer que estamos no caminho certo. Apesar de sentirmos a pressão do mercado, os clientes reconhecem e têm confiança suficiente na nossa organização para continuarem a apostar em nós. Somos o passado, o presente e o futuro dos nossos clientes. Pela negativa destaco apenas o lado pessoal. Esta vida de gestão chega a ser tão absorvente que por vezes abdicamos de muito em detrimento do trabalho.

B!T – Quais os principais desafios que um mercado como o português apresenta atualmente face há 10 anos?

JO – Por um lado, o mercado português tem uma dimensão limitada, quer em termos de recursos humanos especializados quer de clientes com capacidade para investir em inovação.  Por outro lado, o mercado europeu reconhece Portugal como sendo um dos países mais empreendedores e com conhecimentos técnicos acima da média. Neste âmbito, as grandes multinacionais estão a procurar o nosso país para criarem centros de nearshore. A curto-prazo começará a haver carência de especialistas, pois num país da nossa dimensão é difícil crescer o suficiente para alimentar todas estas organizações que estão a investir neste momento em Portugal. Outra das questões geradas por esses dois fatores é o binómio “Valor de venda dos serviços” vs. “Valor de custos dos consultores”. A Rentabilidade vs. Custos é cada vez menor, e qualquer derrapagem num projeto é o suficiente para o resultado ser negativo. Por tudo isto, acredito que as empresas de SI/TI em Portugal tenham de repensar nas suas estratégias por forma a conseguirem adaptar-se a todas estas transformações.

B!T – Das áreas de negócio, serviços ou produtos, quais os que, hoje, têm maior peso no volume de negócios nacional? E há 10 anos?

JO – A bi4all é uma empresa especializada em Business Intelligence. Como tal, o peso do negócio é 90% para o desenvolvimento de soluções de BI e 10% para as restantes áreas. Dentro do Business Intelligence, a tendência do mercado vai de encontro com os grandes temas da atualidade, ou seja o Big Data e a Mobilidade. Em relação ao Big Data, que começa a ser conhecido no mercado como “Big Confusion”, ainda há muita coisa por fazer. O tema é tão abrangente que dependente da estratégia da organização e da teoria adotada. O que levou a que muitas organizações parassem os seus investimentos em SI/TI até entenderem mais concretamente o que é Big Data. Quanto à mobilidade, parece-me que não há dúvidas sobre o futuro. Cada vez mais a informação para tomada de decisão, vista na palma das mãos, é um fator competitivo neste mercado cada vez mais agressivo. Segundo a Gartner, mais de 50% das organizações tencionam adquirir soluções de Business Intelligence para os seus aparelhos móveis.

B!T – E em relação aos clientes?

JO – Em relação há 10 anos atrás, a tecnologia e os clientes tinham ainda um caminho árduo para percorrer. As empresas tinham de estabilizar os seus sistemas de informação (ERP). Apostava-se na construção de Datawarehouses e sistemas de BI assentes sobre esses DW, sendo que para se ter relatórios de gestão, as empresas teriam de desenvolver os mesmos com muita programação. No final, obtinham relatórios estáticos e pouco práticos para a dinâmica das organizações. Ora, isso gerava um mundo de oportunidades para os sistemas multidimensionais do Business Intelligence. Recordo sempre essa época como os anos dourados do BI. Tudo mudou desde essa altura! A maioria das empresas que desenvolviam a tecnologia BI foi adquirida pelas grandes organizações (SAP, Oracle, Microsoft, IBM) que reconheciam a importância das mesmas e o impacto que tinham. Hoje em dia, a maioria das organizações já tem esses sistemas e subsistemas criados, passando agora a necessitar de uma maior acuracidade na informação e maior velocidade no acesso à mesma. É nestes dois campos que mais trabalhamos hoje.

B!T – De que forma, hoje, as empresas portuguesas veem as suas tecnologias de informação, sobretudo quando comparado com a última década?

JO – Depende da maturidade da organização e do tipo de gestão que faz da riqueza gerada. Não há dúvidas da importância dos sistemas de informação nas organizações. O que acontece em alguns casos é que os líderes não têm os conhecimentos necessários para poderem avaliar e decidir o que é melhor. Essas organizações geralmente são geridas por empresários que passaram a vida focados no negócio ou na produção, centralizando as decisões neles próprios, e que por via do desconhecimento não evoluíram para onde deveriam. Por outro lado, nas organizações mais jovens, ou com gestores mais abertos à inovação, é visível essa evolução. Também é importante refletir que a evolução tecnológica por si só não é condição de maior volume de negócios. As empresas têm a informação e o conhecimento para uma melhor tomada de decisão mas a capacidade de a pôr em prática depende da vontade dos gestores e líderes da organização.

B!T – Como decorreram estes primeiros 10 meses do ano?

JO – Este ano está a ser um ano de reflexão e de adaptação à realidade atual. Cada vez mais sentimos a pressão do preço final de venda. Por outro lado, os custos nunca param de crescer. Sejam os impostos, os ordenados, os custos estão sempre a crescer. Essa é uma certeza. Face a estes constrangimentos, estamos a mudar a forma de encarar o mercado. Passámos a ter três níveis dentro da organização (Team Leaders, Tecnical Leaders e Solution Leaders). Todos eles com objetivos e responsabilidades complementares. Cada vez é mais importante a empresa adaptar-se à realidade e orientar-se para os resultados. Em termos de resultados, acreditamos que vamos ficar no mesmo patamar de 2013, sendo que conforme já foi dito, nos últimos três anos crescemos em média 40% por ano. O que significa que este ano, a manterem-se os resultados, será um bom ano.

B!T – Quais os objetivos para 2015?

JO – Os nossos objetivos para 2015 prendem-se com o amadurecimento da restruturação que estamos a fazer, por forma a conseguirmos atingir mais e mais depressa os resultados desejados. Acreditamos que será o ano em que vamos crescer mais em termos de internacionalização. Portugal tornou-se pequeno para uma estrutura como a nossa.


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