NETFLIX: A globalização da personalização

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A Netflix, afamado serviço de streaming de vídeo, é ansiosamente esperada em Portugal já no próximo mês de outubro. E apesar de ainda não ter sido divulgado o dia do lançamento nem oficialmente os preços do serviço, alguns blogues já foram adiantando o serviço. A B!T conversou em Berlim, à margem da IFA, com Neil Hunt (Chief Product Officer) e em Portugal com Carlos Gómez-Uribe (vice-presidente de Inovação de Produto e Personalização de Algoritmos).

Uma coisa é certa, o serviço chega a Portugal com uma “boa oferta”, disse o vice-presidente de Inovação de Produto e Personalização de Algoritmos da Netflix, Carlos Gómez-Uribe, não entrando em pormenor quanto ao número de programas. O executivo disse ainda que o objetivo da empresa, por agora, é aumentar o catálogo de conteúdos que oferece em Portugal e reforçar o negócio. Disse ainda que pode estar a ser considerada a criação de parcerias com operadoras de telecomunicações e fornecedores de serviços.

Sendo a prole de Hollywood e de Silicon Valley, a Netflix agrega o melhor dos dois mundos: algoritmos que otimização a experiência de consumo de conteúdo televisivo e conteúdos, para além dos originais, criados por grandes estúdios cinematográficos. Convém recordar que este é um dos maiores serviços de conteúdos do mundo com mais de 65 milhões de pessoas em todo o mundo a subscreverem o serviço.

Carlos Gómez-Uribe disse-nos que um dos fatores diferenciadores do Netflix são os seus conteúdos originais. Programas produzidos e realizados pela empresa norte-americana, em parceria com alguns estúdios. O executivo revelou-nos que a Netflix está a considerar produzir um talk-show e alguns documentários.

Naturalmente, questionámos se a empresa via, por exemplo, a Apple TV como um concorrente ameaçador. Foi-nos dito que a Netflix encara a competição como uma forma de fazer evoluir o mercado. “Somos muito pacientes”, referiu Gómez-Uribe, comentando sobre objetivos para o número de portugueses alcançados até ao fim de 2015.

Os planos

Falemos agora de planos de subscrição. Tendo em conta que os preços não são ainda conhecidos, sabemos que existem três planos: o básico, o médio e o que poderemos chamar de “premium”. Alguns blogues e sites avançaram com preços entre os 7,99 e os 11,99 euros mas ainda nada está confirmado.

O que se sabe, claro, é que qualquer um dos três garante o acesso, sem restrições, a todos os conteúdos que o Netflix oferece. A diferença reside na qualidade da imagem e na capacidade de reproduzir os programas em vários dispositivos em simultâneo.

O plano básico não permite que os programas sejam vistos em mais do que um ecrã ao mesmo tempo. O médio permite que o streaming seja feito em dois ecrãs em simultâneo. Já o plano premium permite que os programas sejam vistos em quatro dispositivos distintos ao mesmo tempo.

Em todos os perfis, podem ser criados até cinco perfis de utilizador. Aquando da criação de um perfil, a Netflix pede para inserir-se um nome e, de seguida, apresenta ao utilizador um conjunto de filmes, dos quais terá de escolher um consoante as suas preferências. Esta escolha vai permitir ao serviço vislumbrar os gostos do utilizador enquanto consumidor de conteúdos televisivos. Assim, cada perfil do utilizador pode ser personalizado com sugestões que se adequem às suas preferências.

O utilizador pode ainda escolher criar um perfil de utilizador para o seu filho ou filha. Este tipo de perfis apresenta um design mais colorido, com sugestões de filmes e programas para as crianças.

Cada um dos programas vem acompanhado de legendas e idiomas diferentes. No entanto, a quantidade de idiomas e legendas para o serviço em Portugal para cada programa ainda não está definida.

Os conteúdos

O catálogo de programas e filmes varia de país para país. Apenas os originais da Netflix se mantêm como denominador comum. Gómez-Uribe explicou-nos a razão desta discrepância, dizendo que cabe aos estúdios decidir se querem, ou não, que o seu conteúdo seja exibido em determinado país. Também acontece, por vezes, os direitos dos programas terem sido já cedidos a alguma outra entidade no país onde o serviço Netflix, mais tarde, chegou.

Os originais da Netflix são os únicos programas que estreiam em todos os países em simultâneo.

Os algoritmos

Uma das grandes apostas da Netflix recaiu sobre os algoritmos, evidenciando a veia tecnológica da empresa. O serviço dispõe de algoritmos que permitem que o utilizador procure um filme ou programa através do título, do nome de um dos atores, do género ou mesmo através de uma palavra. O executivo mostrou-nos (através do serviço do Reino Unido) que uma pesquisa feita com a palavra volcano (versão inglesa da palavra “vulcão”) apresenta ao utilizador filmes e séries relacionado com desastres naturais.

Apesar de este motor de pesquisa ser utilizado, na maior parte das vezes, para encontrar conteúdos para além dos sugeridos pelo Netflix, 80 por cento das visualizações são feitas através das sugestões do serviço, baseadas no perfil do utilizador.

Outro algoritmo no qual a Netflix investiu permite que o utilizador possa usufruir de uma experiência de consumo de visualização contínua e relativamente fluida. Quando a ligação à Internet começa a perder qualidade, o serviço automaticamente adapta-se à largura de banda e reduz a qualidade do vídeo para que a visualização não seja interrompida. Assim que a largura de banda voltar a aumentar, a imagem regressa à resolução inicial.

Casting: do dispositivo móvel para a TV

A funcionalidade Casting permite que o utilizador utilize o telemóvel ou o tablet como ferramenta de pesquisa (visto que a escrita é muito mais fácil, através do teclado) e “atirar” o conteúdo pretendido para a smart TV.

A pesquisa feita na TV é feita através do comando, selecionando letra a letra, o que se torna bastante aborrecido.

As parcerias

Carlos Gómez-Uribe não se alongou muito neste tema. Embora tenhamos conseguido saber que, para além da possibilidade de serem criadas parcerias com operadoras e fornecedores de serviços nacionais, o executivo disse-nos (esta é para os fãs dos super-heróis!) que o contrato com a Marvel Studios, que criou o DareDevil da Netflix, está a ser ampliado, pelo que podemos esperar novas séries sobre os personagens de Stan Lee.

A globalização da personalização

Neil Hunt, o Chief Product Officer que desde Silicon Valley coordena toda a equipa de inovação e desenvolvimento tecnológico, admite que a personalização dos conteúdos e da experiência de utilização é a área que tem canalizado mais investimento dentro da estrutura Netflix. Basicamente, é a globalização dos conteúdos com um alto teor de personalização. Um pequeno exemplo: deixa um episódio de uma série “a meio. Quando voltar ao Netflix, a plataforma memoriza o local onde estava e pergunta-lhe se quer ver desde aí. Mesmo que seja em dispositivos distintos já que é baseada em nuvem. “Viaja consigo”, esclarece Neil Hunt. “Onde houver uma ligação à internet, nós estamos lá”.

Outro aspeto que tem sido altamente desenvolvido é a questão da acessibilidade. Nomeadamente para invisuais. A B!T experimentou e é deveras impressionante. Quando os diálogos param, há uma voz que vai descrevendo o cenário ou as atitudes dos atores, consoante for mais relevante para o enredo.

Como grandes desafios para os próximos tempos, obviamente a expansão para novos países está no topo das prioridades. Há sempre o desafio dos conteúdos, uma vez que é necessário adquirir os direitos desses conteúdos para poderem ser transmitidos localmente, e é também um desafio técnico. Nomeadamente em termos de idioma. “Lançamos no Japão e as legendas são bastante diferentes. E em árabe ou coreano, temos tido bastante trabalho nesse sentido, há muita complexidade”.

A expansão para novos países traz ainda a possibilidade de expandir os conteúdos efetivamente de forma global. Só assim é possível que títulos como Narcos, uma produção brasileira/colombiana ter um imenso sucesso nas mais distintas regiões. Segundo Neil Hunt espera-se que conteúdo japonês e coreano venha igualmente a engrossar o portfólio de conteúdos da Netflix.


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