MWC | Eugene Kaspersky: Sejam um pouco paranóicos, sim?

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O mundo mudou. A internet, a mobilidade, a Internet das Coisas, a nuvem vieram colocar o planeta “www” como o centro de tudo. Inclusivamente o centro do crime e mesmo do terrorismo. Em Barcelona, no Mobile World Congress, Eugene Kaspersky alertou para os desafios que sobretudo a mobilidade aporta à segurança. E aconselhou a plateia: “Sejam um pouco paranóicos, sim?”. Sim. 

* em Barcelona

Na altura, chamavam-lhe louco. O magnata russo com nome de antivírus teimava em avisar o mundo para os perigos da Internet. Falava em cenários Dantescos que tinham como palco o maravilhoso mundo virtual. Falava em roubos de identidade, em roubos de dinheiro, de bancos, em ciberterrorismo, falava que, um dia, as fábricas podiam parar e a eletricidade ser controlada por computador. E que poder tem quem controla a eletricidade? Imenso, certo? Pois, mas na altura chamavam-lhe louco. Mais tarde, começaram a dar-lhe razão e hoje há quem o apelide de visionário.

Por isso, quando Eugene Kaspersky, no Mobile World Congress,  sugeriu sermos um pouco paranóicos no que diz respeito aos nossos dados, à nossa presença online e à nossa peugada virtual, o melhor é, pelo menos, levarmos em conta  que ele diz.

O mundo está a mudar

Parece uma frase feita. Mas na verdade, o mundo está efetivamente diferente. E o Mobile World Congress deste ano tem vindo a ser prova disso. A foto que Mark Zuckerberg colocou no Facebook no lançamento do novo Samsung Galaxy e que rapidamente se tornou viral é mais do que prova disso.

“Há duas características nos filmes antigos: os artistas fumam em todo o lado e não há telemóveis”, dizia Kaspersky na conferência que a empresa de segurança realizou ontem e que contou com a presença de Sandra Alzetta, executive director product enablement da Visa Europe.

Ou seja, uma engraçada dupla de visão. Por um lado, uma marca comercial que retira benefícios do uso da mobilidade – com todas as formas de pagamentos móveis a ganharem cada vez mais terreno – e quer garantir que a segurança está obviamente assegurada em cada transação. Por outro, uma marca que apesar de comercial nos vai alertando para os perigos de nos aventurarmos nestas transações.

“A mobilidade está a mudar todo o mundo. A Kaspersky tem uma boa solução de segurança mas é preciso mais do que isso. É preciso ter cuidado com os comportamentos online, não confiem em toda a gente na internet. Sejam um pouco paranóicos, sim?”

Sim. Claramente, sim. Mas não muito. Até porque, diz Sandra Alzetta, as plataformas de pagamento são altamente seguras. “O mundo financeiro sempre foi obviamente muito apetecível. E agora está no online. Obviamente que nós, enquanto Visa, colaboramos com empresas de segurança e mesmo com a polícia para garantir a máxima proteção dos utilizadores. Porque se houver problemas, a verdade é que as pessoas deixam de fazer pagamentos e não é isso que queremos, enquanto empresa. A segurança está garantida”.

Sempre houve “bad guys”

Mas o mundo está pior? Provavelmente não. Sempre houve “maus”. Faz parte da história. Os “bad guys”, como dizia Kaspersky, sempre existiram. Hoje, o que efetivamente têm é mais uma plataforma para usar: a internet e os computadores. E para isso contam, demasiadas vezes, com a ajuda do próprio utilizador que através da engenharia social faz transparecer comportamentos e abre falhas que nem o mais potente dos softwares antivirus consegue resolver. Vá lá, quem é que nunca deixou um post-it com a password colado ao computador?

A acrescer a tudo isto, temos a Internet das Coisas, temos os smartphones, os carros conectados, os serviços financeiros a abraçar a mobilidade. “O mundo está diferente e tem um ambiente muito mais complexo, gerido por computadores que, muitas vezes, são geridos por telemóveis, por smartphones. Os maus estão mais inteligentes, com mais ferramentas para atacar”.

Os desafios da mobilidade

Há de tudo, como no crime “tradicional”. Há juniores e profissionais. E até cibergangues, diz Kaspersky. “Os ataques têm vindo a evoluir. Configurações de rede, comportamento dos funcionários a serem estudados. É assim que conseguem, é assim que o cibercrime tem proliferado. Na banca, por exemplo, antes o alvo era os particulares. O roubo era através dos computadores dos utilizadores dos bancos. Mas agora os atacantes estão mais sofisticados. Estão a ir diretamente as banco, aos sistemas bancários, há uma clara evolução. O cibercrime é muito complicado”…

Apesar de tudo, o mundo móvel está ainda, do ponto de vista de ataques, numa fase muito inicial, diz Eugene Kaspersky. “Mas está a evoluir. No futuro, vai chegar ao nível de sofisticação e dimensão que há hoje nos computadores”.

Sandra Alzetta admite que as pessoas estão mais “educadas” na sua postura face ao mundo virtual, já não clicando com tanta facilidade num link que vem de uma instituição financeira. “É uma questão de consciência e é nisso que temos de continuar a trabalhar. A Visa tem obviamente uma grande responsabilidade nisto tudo e tem de ajudar nessa sensibilização”.

O “drama” da IoT

A Internet das Coisas – que Eugene Kaspersky insiste em chamar Internet das Ameaças –  veio acrescentar mais um problema a algo que já era complicado. E o russo especializado em segurança diz que consegue perfeitamente perspectivar as nossas casas a serem hackeadas e resgates a serem pedidos. Ou o nosso carro, conectado, a ser manipulado e ir para outro destino.

A impressão a 3D é outros dos problemas levantados por Kaspersky. “Vai ser possível imprimir o nosso dedo, o nosso olho! E daí garantir dar acesso aos maus… É claro que vamos sobreviver, arranjaremos sempre uma solução. Há sempre a luta pelo bem e pelo mal. Mas há que saber que vai acontecer, há que estar preparado”.

A Apple e a porta traseira

A petição do FBI à Apple para aceder à informação do iPhone do terrorista de San Bernadino não faltou à conversa de Kaspersky com os jornalistas. O diretor executivo de empresa norte-americana, Tim Cook, recusou criar uma “backdoor” nos seus dispositivos, uma medida que Kaspersky diz compreender. “Os cibercriminais têm muitas habilidades. As backdoor não são uma boa ideia nos produtos comerciais porque abrem efetivamente uma porta aos cibercriminosos. Se há uma forma de aceder, mais tarde ou mais cedo os maus da fita vão descobrir, não tenham qualquer dúvida”.


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