MWC 2015: Do saber ao entender o que é o cloud computing

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Ora bem: parece que todos já entendemos o que é cloud computing. E por todos entendam-se as empresas. Mas o que Anthony Behan, global telecommunications industry executive na IBM, tem algumas dúvidas é que saibamos o seu valor. O seu real valor. Numa entrevista dada em Barcelona, por altura do Mobile World Congress, este executivo explicou-nos que

Ora bem: parece que todos já entendemos o que é cloud computing. E por todos entendam-se as empresas. Mas o que Anthony Behan, global telecommunications industry executive na IBM, tem algumas dúvidas é que saibamos o seu valor. O seu real valor. Numa entrevista dada em Barcelona, por altura do Mobile World Congress, este executivo explicou-nos que o cloud computing veio alterar as regras do jogo e democratizar o acesso a recursos tecnológicos. Esta é, por isso, a altura das startups brilharem. E das empresas nascidas em garagens terem o mundo na palma da sua mão.

Anthony Behan, global telecommunications industry executive na IBM
Anthony Behan, global telecommunications industry executive na IBM

B!T – Cloud computing veio alterar as regras do jogo?

Anthony Behan – Sim. Veio, está e vai continuar a mudar.

B!T – Não é apenas mais um conceito? Já ouvimos algo semelhantes há mais de uma década com os Application Service Provider…

AB – Não, não é. A virtualização está a transformar as Tecnologias de Informação, está transformar também as redes… É algo a sério que está a mudar significativamente a forma como se processa a entrega de serviços, tanto em B2B, no modo com a IBM fornece os seus clientes, como também na forma de como os consumidores se relacionam com todo o tipo de indústrias. Então, se pensar não só em telecomunicações, mas também em bancos, retalho… todos estão a empenhar-se em serviços digitais. E esses serviços digitais estão, em algum nível, a serem servidos por cloud e isso tem mudado as coisas dramaticamente.

Mas cloud não é só sobre infraestrutura. Cloud é também sobre integração, é sobre API, é sobre juntar diferentes indústrias para fornecer diferentes tipos de valor e serviços. Vemos muita discussão sobre dirupção e também muita discussão sobre conversões. Empresas como a Google, a Apple ou a Amazon estão a juntar diferentes aspetos de diferentes negócios – seja em media, fitness, automóvel ou outros – e combiná-los para fornecer um serviço mais valioso. Tanto em B2B como em B2C, a cloud mudou a forma como os serviços são entregues e como os serviços são consumidos. A esse nível é muito interessante.

Para onde vamos a seguir? Para um nível maior de automação e inteligência e é nisso que a IBM está a investir muito do seu dinheiro, indo ao encontro da computação cognitiva, cloud inteligente… Permitindo a injeção de um nível maior de automação na entrega de serviços e esse nível de automação precisa de inteligência para poder tomar decisões

B!T – Mas, hoje em dia, as empresas entendem o que é cloud computing? Sabem o que querem ou continuamos a ver empresas com a IBM a terem de lhes explicar tudo? Não estou a falar de empresas de telecomunicações, elas sabem o querem. Mas em Portugal, por exemplo, 99% dos negócios são de pequena ou média dimensão…

AB – Sim, temos a Amazon a fornecer serviços… Elas percebem? Eu acho que todos percebem o que é cloud computing, mas não sei se todos entendem o seu valor. Algumas pessoas acham que cloud computing é basicamente virtualização, é sobre ter um servidor físico e fazê-lo parecer dois servidores físicos e, dependendo dos seus cargos ou daquilo que precisam de fazer, tenham eles feito o salto desde essa premissa básica de que se pode virtualizar infraestruturas para as possibilidades do que isso significa em termos de entrega de serviços digitais. Mas nem todos conseguem fazer essa viagem. A esse nível, é preciso ser dado algum tipo de explicação.

As empresas de telecomunicações, em particular, estão… não direi a lutar com isso, mas estão a tentar descobrir como se movimentarem no ecossistema digital e ainda não têm todas as respostas. Algumas pessoas têm uma visão de que podem coexistir com os fornecedores de serviços over-the-top, outros que precisam formar parcerias. Existem muitas estratégias diferentes em termos de como se devem comportar. Outras pessoas pensam que somos telecomunicações, que fornecemos conectividade, que somos apenas um dumb pipe (ou seja, a rede serve apenas para transferir dados entre um equipamento móvel e a Internet) e orgulhosos disso, e eles não são muitos mas esse modelo de aluguer de utilidade tem sido e continua a ser um negócio gerador de dinheiro e bem-sucedido. E, por um lado, isso é um problema em termos de inovação.

B!T – Sim, até porque seria complicado mudar o modelo de negócio de um dia para o outro…

AB – Claro, claro. Quando a Nokia atravessou a sua transformação, Steven Elop falou sobre uma burning platform (crise iminente), mas não há nenhuma burning platform, hoje, nas comunicações. É comum e em alguns mercados interessante de observar, nomeadamente os mais maduros e competitivos, as consolidações agressivas, particularmente na Europa. Quando vemos líderes macroeconómicos a jogar contra as empresas de telecomunicações forçando-as a fusões e aquisições. Mas há um limite até onde podem ir no que diz respeito a fusões e aquisições. Quando acabarem esse processo, voltarão para um mercado que, fundamentalmente, não está preparado para lhes dar as margens de receitas que tiveram no passado. Então, têm de tentar inovar.

B!T – Afinal, porque é não vão todas as empresas para cloud computing? A indústria considera que é mais barato, mais rápido… Então?

AB – E de alguma forma estão. É uma questão de volume de trabalho. Um exemplo: carregamento pré-pagamento. A cobrança pré-pagamento é uma questão crucial para o sucesso da missão da empresa. Se alguém tenta carregar os seus dispositivos em pré-pagamento e não funciona, isso é um problema significativo porque começamos a pensar em coisas como revenue assurance, riscos de fraude, todo este tipo de coisas. Estão, temos esta aplicação que está ali junto da rede, que precisa de ser conectada fisicamente com a rede, que garante autorização e permissão para utilizar os bens, que é o principal do negócio das telecomunicações.

Os fornecedores de serviços estão absolutamente relutantes em colocar isso na cloud. Agora, é importante, quando falamos de cloud, distinguir entre o que está dentro das instalações e o que está foram das instalações. Mesmo dentro das instalações, através de uma cloud que opera dentro dos seus data centers físicos, até a isso estão resistentes. Então, isso é um problema, concordo completamente. Parte dele é inércia, e parte dele é que o risco versus a recompensa dessa peça essencial de infraestrutura não é suficiente.

B!T – O facto de que alguns países estão a forçar as empresas a terem data centers no território… Mudará alguma coisa?

AB – Acho que é bastante interessante. Eu não estou inteiramente certo do que isso significa. Vou dar um exemplo: houve um incidente, na Irlanda, há alguns anos, quando alguém percebeu que parte do sistema de saúde tinha terceirizado as suas operações, que envolviam registos médicos que estavam na Índia por um breve período de tempo. Essencialmente, o que estava a acontecer é que os dados eram armazenados na Irlanda, num armazém físico, mas como a pessoa que estava a operar o sistema informático tinha um ecrã na Índia que mostrava alguns dos registos em Dublin, isso tornou-se um problema. Tecnicamente, para poderem ser visualizados na Índia, os dados tiveram de estar, naquele momento, na Índia, e, tecnicamente, isso é uma quebra do ato de proteção de dados. Mas nenhuma indústria pode conduzir os seus negócios com este nível de pormenor. Dito isto, há restrições, há regras diferentes dentro da União Europeia e dentro dos próprios países.

B!T – É um desafio para a IBM? Já que a IBM é global, como gerem isso?

AB – Gerimos isso país a país. Todos os dados que temos não são nossos, para começar. São dos nossos clientes. Gerimos país a país, por isso, se tivermos de armazenar dentro do país, armazenaremos dentro do país, mas a gestão não tem de ser feita necessariamente dentro do país.

B!T – Quanto ao Mobile World Congress, estive na conferência onde anunciaram o alargamento da parceria com a Apple. De resto o que veremos de novo da IBM?

AB – A nossa estratégia centra-se em analytics, mobilidade, social e segurança. São temas muito importantes para nós. A mobilidade é um motor significativo da mudança empresarial em todos os nossos negócios, é nisso que estamos a investir intensamente. E por isso vamos continuar a inovar em termos de desenvolver novas aplicações para o mercado. Temos realmente um plano para a IBM com a Apple. E há mais pelo caminho… Estamos ansiosos por crescer e o campo da mobilidade é muito importante para nós, tanto como empresa fornecedora de serviços, como fornecedora de soluções para os nossos clientes.

B!T – Por que é que hei de escolher a IBM para trabalhar comigo?

AB – Costumavam dizer que ninguém é despedido por comprar soluções IBM. Eu não acho que isso ainda seja verdade mas continuamos bem-sucedidos. Não por isso, mas porque a nossa combinação de conhecimento de indústria e tecnologia com a própria tecnologia e soluções, acho que isso é o mais importante. Não trazemos apenas tecnologia ou computadores ou software. É a nossa capacidade de combinar conhecimentos e ajudar as empresas a solucionar problemas de negócios com essa tecnologia e infraestrutura, não só da IBM mas também dos nossos parceiros. Fazemos muito trabalho com os nossos parceiros.

B!T – Serão sempre as telecomunicações, saúde e transportes os setores a liderar na inovação e a adoção de conceitos como cloud computing?

AB – Absolutamente que não. Quem está a liderar estas áreas, hoje? São as startups. Estas indústrias como sistemas de saúde e afins, eles estão a ser quebrados e não estão a ser quebrados por si próprios, estão a ser quebrados por outras indústrias, por outros negócios.

B!T – Então, veremos mais empresas e negócios de garagem? Agora é a altura para negócios de pequena dimensão, startups…

AB – Completamente. Isto faz-nos voltar ao assunto com que começámos que é a cloud. É mais democrático, algumas pessoas têm usado essa palavra, não sei se é a mais apropriada mas o sentimento está correto, absolutamente. Significa que mais pessoas, qualquer pessoa pelo mundo, tem acesso a cada vez mais recursos do que nunca. Se eu quisesse construir uma aplicação, não é difícil, é bastante livre e, por isso, se eu tiver uma ótima ideia… Na verdade, eu construí a minha própria aplicação no BlueMix, há três meses. Eu costumava escrever código, agora já não escrevo há 10 ou 15 anos, mas agora é tão fácil. As pessoas dizem que todos são programadores, agora, todos sabem trabalhar com código…

B!T – Só tem de se ter a ideia…

AB – Absolutamente. Mas proteger a ideia, isso é com os advogados, é algo mais desafiante. Mas a inovação, eu não acho que a inovação venha das telecomunicações. Acho que houve muita investigação e desenvolvimento feitos nas empresas de telecomunicações, nos últimos anos, empresa como a BT, At&T…

B!T – Começamos a conversa ainda em off a dizer-me que tinha estado recentemente em Lisboa. Tenho de lhe perguntar: o que estava lá a fazer?

AB – O que estava a fazer em Lisboa? Estava a encontrar-me com clientes sobre um grande negócio e depois organizámos o nosso conselho de analytics e aconselhamento de telecomunicações com 11 clientes do setor, durante três dias, discutindo telecomunicações, analytics…

* com Filipa Almeida


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