Entrevista da Semana: Fujitsu quer Europa a liderar globalização

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Duncan Tait é o primeiro administrador não-japonês da Fujitsu. Responsável pelo mercado europeu, entre outros, o executivo quer ver o velho continente a liderar a globalização da companhia nipónica. A B!T entrevistou-o em Madrid.

Duncan Tait
Duncan Tait

Nos últimos anos, a Fujitsu tornou-se uma companhia global. Qual é o papel que a Europa quer ter na globalização de uma companhia como a da Fujitsu?

Eu diria que a equipa da EMEA quer ajudar a liderar a globalização da companhia.

Mas atualmente que percentagem de negócio é que a EMEA detém no negócio global da Fujitsu?

Detemos cerca de 20 por cento do negócio global. Uma prova de que a companhia quer globalizar-se e vê a Europa como um importante mercado é o facto de eu ser o primeiro administrador não-japonês.

Sim, não é usual que uma empresa japonesa tenha administradores de outros países…

Em abril de 2014 foi uma altura em que mais pessoas do âmbito internacional integraram o grupo do comité executivo. Para além de me terem a mim a trabalhar na empresa, tínhamos também o Bob Pryor, da subsidiária americana e o Mike Foster da Oceânia, três pessoas no grupo do comité executivo. Este ano, temos uma pessoa que não é japonesa na administração e alguns diretores externos não-executivos que se juntaram à companhia. Se reparar, a composição do quadro administrativo é naturalmente mais global, o que é bastante positivo para nós.

Estava-me a dizer que a Europa quer ser a líder dessa globalização?

Sim, penso que enfrentamos uma das maiores economia do mundo, com alguns dos clientes mais inovadores e penso que podemos usar essa experiência para ajudar a globalizar a companhia.

Atualmente vê na Europa algum indício de recuperação?

Eu penso que a Europa ainda está fragmentada. Se considerarmos o mercado britânico, a economia já se encontra em recuperação. Ainda não recuperou de forma consistente, mas já regista crescimento há algum tempo. Isso mudou a natureza das conversações que temos com os nossos clientes. Relativamente ao mercado espanhol, vejo uma recuperação, ao contrário de Itália que continua a enfrentar algumas dificuldades. Aliás, de um modo geral, penso que está difícil para toda a gente. Verifica-se uma situação de contraste. O que a Fujitsu precisa de fazer é, dado que apresenta um extenso portefólio de soluções e serviços, ajustar a sua proposta de valor à economia de cada país. Cada vez há mias clientes espanhóis que perguntam como é que me pode ajudar, enquanto CEO, a crescer ou como é que um oficial do governo pode servir melhor os cidadãos. Outros países, como Portugal, questionam como é que podem poupar dinheiro e conservá-lo.

A redução de custow continua a ser em alguns países o problema central?

Sim, depois de avaliarmos o mercado do Médio Oriente chegámos à conclusão que precisamos de alterar a nossa proposta de valor. O Médio Oriente não têm necessariamente uma infraestrutura em todos os seus países. Presentemente estão a construir a próxima geração de infraestruturas, estão a saltar várias gerações de infraestruturas e a tentar seguir o modelo de outras cidades inteligentes, recorrendo a tecnologia computacional de alta performance. Temos de ter consciência das necessidades dos nossos clientes em cada mercado, só assim é que a Fujitsu saberá como operar em diferentes mercados.

Porque é que o cliente deve escolher a Fujitsu?

Eu diria que se quiser um compromisso sustentável a longo termo de uma companhia que se foca, sobretudo, nas exigências de cada cliente, deve escolher a Fujitsu. A companhia integra o mercado espanhol há cerca de 40 anos, através dos bons e maus momentos, sendo que o nosso nível de compromisso a esta economia tem permanecido constante. Tal seria semelhante em Portugal. A nossa companhia mantém-se fiel ao seu compromisso. O mesmo acontece no Reino Unido onde estamos há mais de 40 anos, tendo acompanhado o mercado, mais uma vez, nos bons e maus momentos. É assim que permanecemos mais próximos dos nossos clientes. Se adicionarmos ao compromisso de longo termo uma extensa tecnologia altamente capaz e serviços de portefólio, penso que podemos ajudar os nossos clientes no seu percurso para este novo mundo de digitalização.

Quais considera serem as novas necessidades das companhias? Sabemos que as empresas têm vindo a investir em TI e, provavelmente demasiadas vezes, não obtiveram o retorno do investimento que os players prometeram…

Penso que, independentemente da economia de cada país, o governo e a organização do setor privado da Europa está a passar por grandes transformações.

Está a falar da cloud?

Não, estou a falar das alterações no negócio. Esqueça a tecnologia. Quando falamos com os administradores, CEO e presidentes destas companhias vemos que estão a atravessar grandes mudanças. Começo a perceber que estas companhias precisam de adicionar grande quantidade de valor e inovação aos produtos que apresentam ao mercado. Esta digitalização é muito real para as companhias, seja no setor da banca, energia, retalho ou mesmo em um governo. Digitalizar o mundo significa, no caso dos governos, melhorar os serviços aos cidadãos a custos reduzidos e, em termos de companhias de setor privado, isto é “viver ou morrer”. Existem duas dinâmicas dentro das companhias. Se falar com os CEO, ele tem um papel muito difícil, esteve anos a investir em tecnologia e é complicado estabelecer uma mudança repentina e isso está a criar muita frustração às pessoas das empresas, que terem mover-se de forma rápida. Assim, assiste-se a uma dinâmica de uma TI mais lenta, da qual o CEO é responsável, versus um uso mais rápido de TI nas exigências das empresas. Na Fujitsu apostamos nas duas dinâmicas, ou seja, podemos ajudar os CEO a reduzir custos para libertar dinheiro para investir na digitalização e, para as pessoas de negócio que tenham tecnologia de digitalização semelhante em aplicações, podemos ajudá-las, através da cloud, a mudar mais rapidamente.

Fala de governos, de grandes companhias, mas o mundo não são só governos e grandes companhias, então e os atores que fazem a economia mexer? As pequenas e as médias empresas.

Eu acho que, na maioria dos países, as estatísticas são similares: as PME constituem grande parte do emprego. Com a nossa cobertura baseada em canais, em que levamos os nossos sistemas de cloud e tecnologia às PME, trabalhamos para as servir. Temos alguns dos nossos serviços, como a cloud pública, em que podemos aceder como uma PME. E pretendemos lançar a nossa plataforma de negócio digital na Europa, provavelmente algures no próximo ano. Estas são tecnologias que as PME podem usar regularmente. Vou-lhe dar o exemplo do que fizemos na Irlanda do Norte, mais propriamente em Gales, em que construímos centros informáticos de grande capacidade e trabalhamos com o nosso cliente HPC Wales para disponibilizarmos esse centro informático de alta capacidade em pequenos tamanhos para as PME. As pessoas na Finlândia estão usar os sistemas, Escócia, Irlanda e Gales, todos terem acesso a centros informáticos de grande capacidade que nunca poderiam usar enquanto PME. Tal permitir-lhes-á avanços de que nunca seriam capazes de fazer sem nós.

A cloud democratizou o acesso à tecnologia para as PME?

Eu acredito que sim. Penso que a computação de alta performance é um grande exemplo de que teria de ser uma empresa bastante rica para investir em alguma desta tecnologia de computação de alta performance. Mas o facto de haver cloud de computação de alta performance dá acesso às PME. Isto está a promover a inovação e se falar com alguns dos administradores do governo da Irlanda do Norte, eles dir-lhe-ão que está a promover inovação em seu benefício.

Big Data, outra palavra de destaque nos dias de hoje. As empresas já se aperceberam do real valor dos seus dados e como usá-los para obter ter um efetivo impacto nos seus negócios?

Acho que estão a começar a perceber. Acho que é mais relevante em algumas indústrias do que noutras, mas penso que as pessoas ainda não percebem o valor dos dados que têm ao seu dispor.

Qual foi o comportamento do mercado Europeu nos primeiros seis meses deste ano?

Internamente, diria que, à medida que o euro desvalorizava, particularmente durante o período de natal/ano novo contra o dólar, estava a estimular o crescimento na Europa. Agora teremos de ver o que acontece no próximo ano, se o euro caí contra o dólar e nos torna mais competitivos, tal alimenta a indústria da manufaturação na Europa. Acho que é muito cedo para dizer que estamos a ver melhorias, vamos seguir o que os clientes fazem e concentrarmo-nos nas suas exigências. Não existe nada que possamos fazer sobre a macroeconomia da Europa, por isso continuaremos a trabalhar atentamente.

Os clientes continuam a adiar os investimentos ou já começam a ter a necessidade de outra ronda de investimentos em TI?

Acho que a situação é mista, genuinamente mista. Depende de país para país. Acho que em Espanha estamos a ver alguma liberdade de gastos, vemos os clientes mais conhecedores de como devem investir o dinheiro. Se vai investir o dinheiro da empresa, vai querer perceber qual é o argumento do negócio, vai querer saber quem é responsável por entregar esse argumento e se as empresas conseguem fazer o argumento de negócio funcionar. Temos de estar muito focados no cliente para perceber onde está o dinheiro.

* com Catarina Gomes


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