Fujitsu confortável no papel da globalização

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É verdade que a Fujitsu é japonesa. E é verdade que alguns dos produtos que desenvolve e alguma investigação e desenvolvimento que faz é apenas aplicada ao mercado interno. Mas, hoje, a Fujitsu é, mais do que tudo, uma empresa global. E é assim que assume no mercado. Até porque o grupo tem já mais de 162 mil pessoas a trabalharem em mais de 100 países. Masami Yamamoto, o presidente deste colossal grupo nipónico, falou em Tóquio a um restrito grupo de jornalistas e explicou a sua visão sobre o mundo. Ou melhor. Sobre o novo mundo onde as “Inovações Humanocêntricas” vão ditar as tendências.

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A imponência e o rigor de uma entrevista a um CEO de uma companhia japonesa cria um curioso contraste com as empresas europeias. Aqui, no Japão, tudo começa milimetricamente a horas. O que, digamos, é ligeiramente diferente dos hábitos europeus, mesmo quando comparado com uma já de si mais rigorosa Alemanha, por exemplo.

Masami Yamamoto, o homem que desde 2010 assume o cargo de presidente do conselho de administração da Fujitsu, acolheu na capital Tóquio, um grupo de jornalistas deveras internacional para uma entrevista conjunta.

E sem perder tempo, justificou o facto do grande tema do “Forum Tokyo 2014” ser “Inovações Humanocêntricas” pela evolução das Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) que, hoje, se apresentam como uma parte importante e crítica da infraestrutura social. “Logo, as TIC permitem-nos enriquecer a nossa vida e até mesmo criar novos padrões de segurança. Acredito que as TIC têm um papel muito importante neste terreno”. Aliás, para o CEO, as Tecnologias da Informação e Comunicação catapultam o negócio e o valor de negócio mas também a sociedade como um todo. “Por isso, a Fujitsu estará cada vez mais focada nesta tal inovação humanocêntrica”.

E o Japão dos gadgets?

No entanto, também não deixa de ser verdade que a “paisagem” do Japão mudou no que diz respeito ao mercado das tecnologias. Ou melhor, da eletrónica. Há 10 anos, o mercado japonês era basicamente o número um em gadgets. E tudo o que tivesse a ver com mobilidade, TV, computadores, telemóveis, mesmo tudo, parecia ter no Japão o seu epicentro. Mas hoje parece que este mercado do sol nascente tem vindo a perder a sua, digamos, “gadgetização”. E grandes empresas, como a Toshiba e a Panasonic, para dar apenas alguns exemplos, estão hoje muito mais focadas no mercado B2B, ou seja, no mercado empresarial, precisamente aquele onde atua a Fujitsu. O que aconteceu ao Japão? O que aconteceu ao Japão dos gadgets? O que mudou nos últimos anos?

Para Masami Yamamoto, tudo tem a ver com o facto de nos últimos 10/15 anos o mundo ter realmente mudado. “A internet veio criar um mundo cada vez mais conectado. Tudo está ligado. E cada vez são precisos mais serviços para que essa conectividade aconteça. Este ano escolhemos precisamente o tema Inovações Humanocêntricas. É verdade que nos últimos 10 anos, nós e muitas outras companhias japonesas, falhamos ao interpretar a mensagem. Não nos apercebemos que esta mudança estava a acontecer. Tendo dito isto, acredito piamente que há imensas oportunidades para as empresas japonesas. Porque enquanto tivermos o foco que de tudo hoje está realmente interconectado e de uma forma mais rápida do nunca, percebemos que esta é a base na qual temos de trabalhar. E a partir daqui podemos escolher as áreas nas quais queremos dedicar-nos. Por outras palavras, esta conetividade orgânica das coisas e os serviços que têm de ser oferecidos aos consumidores são a chave. É verdade que o Japão tem sido muito bom em cada produto de forma individual. Na tecnologia. Mas agora já não falamos de produtos individuais. Falamos da tal conectividade orgânica.”

Software e hardware: filhos e enteados?

A verdade é que o software é, muitas vezes, apontado como a “estrela”, como a solução para todos os problemas, ao contrário do hardware que é visto como um mal necessário. Ou seja, um filho, outro enteado. Qual a visão da Fujitsu? Masami Yamamoto não tem qualquer dúvida. É a combinação de ambos que permite realmente potenciar as TIC. “A Fujitsu tem por missão oferecer a melhor solução possível aos clientes. E para melhor prestarmos o serviço, temos de saber exatamente o que o cliente quer. Acreditamos que as necessidades dos nossos clientes pressupõem as duas componentes: o software e o hardware. É a combinação de ambos que faz um excelente serviço”, disse aos jornalistas.

Aliás, potenciar as TIC não parte apenas de uma empresa ser capaz de fazer tudo. Masami Yamamoto admite que tem de haver todo um ecossistema para que isso aconteça. “Temos de abraçar muitos parceiros para, no final, termos soluções de topo. E para sermos capazes de trabalhar com os melhores fornecedores do mundo quer dizer que também nós, Fujitsu, temos de ter as melhores tecnologias, senão essa colaboração com os melhores é impossível”.

Masami Yamamoto deu como exemplo a área dos servidores onde a Fujitsu colabora com a SAP e Oracle. “Estes fornecedores olham para a tecnologia que temos nesta área e percebem que estamos extremamente focados. Só por isso colaboram connosco.”

Mas porque então precisa a Fujitsu de desenvolver smartphones e PC? Para o CEO é porque para otimizar o serviço do cliente é necessário ter este interface, como um smartphones ou um PC. “Sem esse interface não podemos servir o cliente!”.

 A globalização da Fujitsu 

A Europa está em crise. Não há qualquer novidade, aqui. Mas Masami Yamamoto garante que na estratégia de internacionalização e, mais do que isso, globalização da companhia japonesa a Europa tem vindo a conquistar particular relevância. “Estamos a ver um curioso crescimento dos mercados europeus. Além de que já temos alguma história nesta geografia. Muitos dos nossos clientes alavancaram a nossa infraestrutura, o que é uma boa base para nós. E se, antes, nomeadamente na Itália, na Alemanha e na Grã-Bretanha, essa infraestrutura era basicamente sustentada em hardware, hoje providenciamos quer a parte do hardware quer do software. Ou seja, da base do hardware estamos a estender à área dos serviços”.

Quanto aos mercados emergentes, obviamente que depende do mercado em questão e das suas particularidades, pelo que Masami Yamamoto admitiu que a abordagem da Fujitsu é específica em cada mercado, ajustando-se à particularidade do país.

Por exemplo, na Arábia Saudita, as soluções ambientais são aquelas em que a Fujitsu mais tem investido no mercado. “Estamos ainda a fornecer os nossos serviços de supercomputação às universidades”.

 Investir em Portugal… de olho no Brasil

Especificamente sobre o mercado português, e apesar de ser um território pequeno numa Europa em crise, Masami Yamamoto garante ser muito importante para a companhia, para além de Portugal ser “um país amigo da Fujitsu”. “Sim, é um país no qual a maioria das empresas são pequenas mas também têm grandes companhias como a Portugal Telecom, que é obviamente nosso cliente. Para além do mais, Portugal tem o interesse acrescido de ser uma porta de entrada para mercados da América do Sul. Tal como Espanha. Por isso, temos muito interesse em alimentar esta relação com o vosso país”.

Aliás, Masami Yamamoto mencionou que olha para a Europa como um todo, apesar das suas diferenças. “Faz todo o sentido investir na Europa, o valor do negócio é claro”.

 Espanha vai continuar a ter investimento

Espanha conta com uma forte presença da Fujitsu que o ano passado comemorou 40 anos de presença naquele país. Em Málaga, a empresa nipónica tem uma fábrica que abastece o mercado europeu, investimentos que Masami Yamamoto garantiu serem para continuar. “Acreditamos que o mercado europeu tem muito valor pelo que continuará a ser uma das nossas apostas. A Fujitsu não tem uma solução para recuperar a economia espanhola mas, no entanto, acredito que podemos trabalhar de perto com as empresas espanholas para aumentar o seu valor e a sua competitividade”.

Hoje, o grupo Fujitsu emprega qualquer coisa como 162 mil pessoas em mais de 100 países. Em 2013, a Fujitsu Limited apresentou receitas consolidadas de 46 mil milhões dólares americanos para ano fiscal encerrado em 31 de março de 2014.


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