ENTREVISTA DA SEMANA | Growin: A arte de reter talentos

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Há cerca de um ano e meio, a portuguesa Growin resolveu lançar-se no mercado das Tecnologia de Informação. Mais concretamente, no outsourcing de recursos humanos especializados neste setor. Um destino influenciado pelo percurso profissional de Sónia Jerónimo que há mais de 17 anos que abraça este mercado e que é a alma e rosto deste projeto. Um ano depois, a empresa já atingiu o “break even” e congratula-se por ser uma “employer brand”.

O desafio era criar uma empresa na área do outsourcing das TI. Sónia Jerónimo, que há uns bons 17 anos lidava com o setor, acabou por o aceitar. E com um sabor especial: passaria não só a dirigir a empresa, mas a ter uma participação no capital da organização. “Estava a criar algo que não sendo 100% meu, seria também meu, o que acaba por ter outro significado”.

O mercado das TI é absolutamente apaixonante. Quando mais não seja, diz a CEO Sónia Jerónimo, porque está permanentemente em contraciclo. “Podem vir as crises de petróleo, financeiras, que as TI conseguem manter-se”. Aliás, a Growin, fundada em 2015, não nasceu propriamente no mais auspicioso momento económico. A razão? “Porque independentemente das organizações, das indústrias que estejamos a falar, todas as empresas estão apoiadas em sistemas de informação. A fatura do restaurante, hoje, tem um software por trás. Não podemos viver sem as TI”.

Quando foi criada, basicamente a empresa dedicava-se a 100% ao outsourcing de consultores com valências tecnológicas, nomeadamente para os setores da banca, seguros, telecomunicações, assim como “alimentava” startups quer nacionais quer internacionais que se começavam a instalar no nosso país. “Todos estes setores têm uma coisa em comum: precisam de talentos na área tecnológica. E apesar de haver muitas empresas no mercado a fazer o mesmo, há sempre espaço para quem quer fazer bem e, sobretudo, melhor”.

Mundo do outsourcing está a mudar

Consultores com valências open source, desde Java a PHP, e Outsystems são os mais requisitados pelo mercado. Isto, claro, para além de tudo o que for produtos Microsoft.

Mas, hoje, o mercado de outsourcing está claramente em fase de “transição”, diz Sónia Jerónimo. Quando a Growing foi criada, no início de 2015, o período económico era efetivamente conturbado, pelo que as organizações não tinham autorização interna para fazer novas contratações. Ou seja, o outsourcing acabou por lucrar com todo este ambiente já que os projetos tinham de ser feitos, mas não era possível contratar. “O mercado acabou por se socorrer das empresas de outsourcing para terminar os projetos”, explicou a CEO. Mas a economia está a mudar. E o que se nota, esclarece Sónia Jerónimo, é que a procura continua, mas muitas empresas já estão a ter um foco no seu próprio recrutamento, uma vez já terem budget e autorização para contratar.

“Aliás, o que infelizmente acontece, mesmo na nossa empresa, mas faz parte desta tal mudança de ciclo, é que muitas vezes os consultores estão alocados a determinado projeto e acabam por ser contratados pelas empresas.”

O que, não sendo propriamente bom para a Growin, que perde negócios e recursos, tem um lado deveras positivo. “Só quer dizer que temos os recursos certos no sítio certo. E não é a primeira vez que grandes empresas, como a Google, por exemplo, contrata recursos humanos que trabalhavam na Growin. Só quer dizer que temos técnicos e consultores de bom nível”.

Com o “break even” operacional a ter sido conquistado em julho do ano passado, seis meses após a criação da empresa, a Growin começa agora a encetar novos investimentos. Um desses investimentos é um escritório na cidade do Porto e a criação de uma nova linha de negócio, denominada Growin Innovation, um estúdio de “service design”, ou desenho de serviços, para endereçar a transformação digital das organizações.

Melhorar a experiência do cliente

O novo estúdio de “service design” pretende melhorar a experiência dos clientes… dos clientes da Growin. “Pode ser o cliente interno, como um colaborador. Por exemplo, a EDP, com 10 mil colaboradores, tem várias ferramentas internas, como seja uma aplicação para marcação de férias. Ou então pode ser um cliente externo.” Ou seja, melhorar a experiência de vida seja dos próprios colaboradores, seja do cliente “final”.

“O arquiteto Siza Vieira tem todas as suas criações centradas no Homem. Quando cria um novo bairro social, fala com os moradores antes de o construir. O nosso estúdio, e aquilo a que nos propomos, é exatamente a mesma coisa. Desenhar um serviço adaptado às reais necessidades e aos reais gostos de quem o vai utilizar. Daí usarmos as metodologias de ‘design thinking’”. O objetivo da empresa é que este estúdio venha a representar entre 8% a 10% do negócio.

Como fixar recursos?

Desde a fundação da Growin que Sónia Jerónimo acreditou, pela experiência que trazia de outras empresas, que podia criar algo diferente. Sobretudo, queria uma organização na qual as pessoas estivessem, definitivamente, no centro de tudo. “E desde o início que a Growin se centra em um conjunto de valores que no fundo são o coração da organização e que guiam as decisões de todos os colaboradores. Valores como canais diretos à direção, seja para falar de um projeto que não está a correr tão bem, seja um problema pessoal, familiar, porque precisa tirar dias, ou trabalhar desde casa, de um adiantamento de um subsídio de férias ou Natal…”

Outro aspeto que Sónia Jerónimo enfatizou foi a transparência com a qual os números são comunicados aos colaboradores e a constante aposta na sua formação. “Isto para além do acompanhamento formal e informal dos nossos colaboradores e a responsabilidade social. Todos os nossos colaboradores pertencem aos nossos quadros. Não há contratos a prazo ou recibos verdes. Quando contratamos é para apostar e investir na carreira da pessoa”.

Diz a CEO que todos estes valores resultaram na criação de uma equipa que tem orgulho de trabalhar com a Growin. “O ano passado, metade das nossas contratações foram por referência interna. Isso significa que são os nossos próprios colaboradores que se sentem felizes e nos recomendam. Basicamente, no primeiro ano da nossa atividade conseguimos o ‘employer brand’, com os nossos colaboradores a serem embaixadores da nossa própria marca. E isso é excelente. É muito importante”.

Sónia Jerónimo admite que esta capacidade de selecionar e reter os talentos passa muito pela referenciação interna e por terem passado a imagem junto do mercado que são uma “employer brand”. “As pessoas querem trabalhar connosco e isso tem facilitado imenso as nossas contratações”.

Em 2015, ano da sua criação, a empresa terminou com uma faturação de dois milhões de euros e 110 colaboradores. Para este ano, o objetivo era duplicar a faturação – “vamos claramente ultrapassar o objetivo proposto”, diz Sónia Jerónimo – e 160 colaboradores, valor que igualmente deverá ser ultrapassado.


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