Entrevista da Semana | EMC: Fusão com Dell não altera objetivos

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2015 não foi ingrato para a EMC Portugal, sobretudo se levarmos em conta a notória retração do mercado nacional. Cresceu 3% mas, acima de tudo, viu a sua quota de mercado aumentar, nomeadamente no “mid-market”, uma das claras apostas para 2015. Um ano que, mais do que tudo, acabaria por ficar marcado pela compra da Dell. Um negócio de 59 mil milhões de euros, a maior aquisição de sempre entre tecnológicas.

Aqui em Portugal, Isabel Reis, diretora-geral, admite que não sabe ainda o impacto que esta fusão vai ter na estrutura lusa. Por tudo isso, e com certeza muito mais, a executiva diz que 2016 vai ser um ano “interessante”.

Vamos inevitavelmente começar pela aquisição da EMC pela Dell. Um negócio de 59 mil milhões de euros naquela que se tornou a maior aquisição de sempre entre tecnológicas…

Sim, o negócio já foi aprovado pelas autoridades reguladoras dos Estados Unidos e a União Europeia também já deu o seu parecer favorável. Penso que o negócio está a avançar de acordo com as expectativas. Internacionalmente, espera-se que no final do terceiro trimestre a consolidação esteja realizada.

Aqui em Portugal, que impacto terá este negócio na estrutura da EMC? Já têm alguma noção, ou ainda é muito cedo?

Temos zero de noção do impacto que vai ter a nível local, mas julgo que até ao final do ano não haverá qualquer tipo de alteração. Não havendo qualquer informação de como vão funcionar as estruturas ex-EMC e Dell, parece-me que pelo investimento feito pela Dell e pelos outros acionistas — Michael Dell está a liderar uma fusão na qual existem outras entidades a fazerem parte do negócio — parecem-me haver duas ou três coisas que a Dell não vai querer prescindir da EMC: o portfólio, a base instalada e os profissionais EMC que têm colocado a empresa com a maior quota de mercado em todo o mundo.

No comunicado de imprensa internacional que apresenta os resultados, o CFO da EMC, Zane Rowe, fala na criação de sinergias entre as duas empresas, fala da transformação do negócio mas também da redução de custos…

Sim, mas isso é um programa que já tinha sido anunciado pela EMC o ano passado, uma diminuição de 850 milhões de dólares e que está em curso em todo o mundo. Não sei se terá tido alguma coisa a ver com a fusão, quando foi lançado. Mas essa redução foi anunciada muito antes da fusão com a Dell.

Mas já perspetivavam, quando se falava na reforma do presidente Joe Tucci, que um negócio deste género estaria em vista?

Há dois ou três anos que se fala de uma fusão na EMC.

Sim, na altura creio que se falava muito na HP…

Exatamente. A HP ganhou ali algum peso. O Joe Tucci sempre disse que queria deixar a empresa consolidada de forma muito forte. E, hoje em dia, para se crescer exponencialmente, tem de haver aquisições, tem de haver fusões. Logo, esperávamos, assim como os analistas, que um negócio acontecesse. Mas se era com a Dell creio que ninguém sabia.

Não era o nome, digamos, mais lógico, pois não? Apesar de com a notória queda na venda do hardware esperar-se que a Dell tomasse alguma atitude…

Sim, até tomaram a opção de sair de bolsa. Mas sim, não era o nome mais evidente. Apesar de depois de se pensar, fazer todo o sentido, é a empresa que tem menos “overlapping” do mercado e que pode criar uma das, senão a, oferta mais forte nesta área da cloud, segurança… lembre-se das empresas VMware, Pivotal… Com os dois portfólios, há claramente novas áreas de negócio que se abrem. Que nós, enquanto EMC, não tínhamos e eles também não. Se formos a ver bem, haveria muito mais “overlapping” com a HP.

Centremo-nos agora nos resultados de Portugal. Na última conversa que tivemos, em julho passado, assumia estar bastante satisfeita com o negócio realizado até aí. Como correram os restantes meses de 2015?

Continuamos muito bem, fizemos um bom ano. O terceiro consecutivo em que ultrapassamos os objetivos.

Mas os objetivos eram ambiciosos ou…

Eram os mesmos do ano anterior. Tivemos um crescimento em termo de objetivo “flat” de 2014 para 2015. Temos os dados oficiais da IDC de quota de mercado e a EMC tem mais quota em 2015 do que em 2014, isto quando o mercado encolheu. Ao crescermos 3%, acabamos por crescer bastante mais porque conseguimos ir buscar uma maior fatia do mercado disponível do que a que tínhamos em 2014. E temos uma quota de mercado de mais do dobro do segundo maior concorrente da EMC em Portugal. Em “high-end”, temos 100% de quota, variamos um ou outro trimestre com a IBM ou Hitachi. No “mid-market” o mercado está muito mais dividido. Há muitos fornecedores. Mesmo assim temos o dobro da quota do segundo fabricante mais cotado.

As áreas de crescimento em Portugal estão alinhadas com as restantes “casas” EMC ou o nosso país tem alguma particularidade que nos distingue?

Temos algumas características próprias. Estamos um pouco atrás no que é a transformação digital das empresas. Há o interesse em aquilo que é o “software defined data center”, em conhecer o que é possível fazer e quais são as ferramentas disponíveis, mas ainda não houve uma adesão total e completa porque isso significa o transformar o negócio, adaptar o data center…

Ainda não há investimento real, é isso?

Haver, há. Mas em comparação com o que se faz internacionalmente… Porque a alteração dos processos de negócio implica obrigatoriamente uma alteração na forma de gerir as TI dentro das companhias. Além de estarem muito mais perto do negócio, além do negócio começar a ter uma interferência direta no que são as estratégias de TI, algo que antigamente seria impensável, a necessidade das empresas se prepararem para serem um “service provider” dentro da sua própria estrutura às várias unidades de negócio, a necessidade de terem um sistema automatizado, rápido, com recursos ilimitados e com budgets mais reduzidos, faz com que toda a estratégia de TI tenha de ser repensada. Tudo isso está a ser pensado pelas empresas não só portuguesas mas também espanholas, mas ainda não tem a mesma expressão nos resultados do que outros países, nomeadamente os Estados Unidos.

Há investimento na cloud?

Há, nomeadamente da cloud híbrida, criando uma cloud interna privada. Há muita disponibilidade de aplicações para clouds externas. Assim como há investimento em Big Data, é inevitável. Sobretudo nas grandes empresas que recolhem vários tipos de informação e precisam de ter os dados analisados por sistemas de “business analytics”. Só assim podem depois disponibilizar essa informação ao negócio por forma a fazer o ajuste da oferta do mercado de acordo com requisitos do cliente. Essas áreas de negócio na Alemanha, Reino Unido e alguns países da Europa do Norte são mais fortes. São países com mais dinheiro. Porque maturidade tecnológica as empresas portuguesas têm muita. A questão são os recursos financeiros…

Há alguma área cujo crescimento de alguma forma a tenha surpreendido?

Somos muitos fortes na área de “enterprise”, que é uma imagem de marca da EMC em todo o mundo, não só em Portugal. Felizmente, somos considerados como fornecedor privilegiado nas empresas de topo de todo o mundo e Portugal não é exceção. Uma área onde não tínhamos um espaço tão forte era no “mid-market”. Não tanto nas contas que chamamos “corporate”, que não têm a dimensão de umas telecomunicações ou de um banco, mas que já têm algum tamanho, mas na área das pequenas e médias empresas tivemos um crescimento elevado, de mais de 50%.

Adequaram a oferta?

Sim, adequamos às necessidades desse mercado com custos muitíssimos mais baixos, ajustados à estrutura e realidade dessas empresas. Também houve um investimento em termos de recursos humanos nessa área. O que é certo é que toda a estratégia que criamos no sentido de crescermos o nosso espaço na área de “mid-market” resultou e teve retorno.

Dizem ser a sucursal da EMC com mais quota em toda a EMEA? O que justifica isso?

Claro que ser líder num país mais pequeno é mais fácil do que em uma Alemanha. Todas as EMC na Europa, à exeção de uma, são líder de mercado nos seus países. Não têm é uma quota de mercado tão grande como nós. Não é fácil, é como no futebol: é complicado chegar a primeiro, mas mais complicado é manter a liderança, até porque nos tornamos no alvo mais apetecível. Acho que temos uma excelente equipa e o facto de termos uma orientação ao cliente muito personalizada e muito recorrente leva-nos a estar muito em cima dos acontecimentos. E isso traz vantagens nas alturas em que surgem as operações.

Percebi que em termos de recursos humanos investiram no “mid-market”. Mas em termos globais, cresceram?

Não, ajustamos foi algumas áreas. Investimos nas que achamos que tinham maior potencial de crescimento e fizemos ajustamentos nas áreas mais débeis. Aliás, faz parte da redução anunciada, Portugal não escapa. Mas foi mínimo, de resto à escala da estrutura, não somos mais do que 50.

Como vai ser este ano?

Vai ser um ano engraçado. Porque vai ser um ano de mudança. Os objetivos são os mesmos que definimos todos os anos: manter a base instalada, crescer nas áreas de tecnologias emergentes e nas novas tecnologias que consideramos preponderantes na questão da transformação digital, ganhar novos clientes… Ou seja, pelo facto de haver uma fusão os nossos objetivos não se alteraram. Mas como é óbvio não vamos acabar o ano da mesma forma que acabamos 2015. Vai ser interessante, porque obrigatoriamente vai haver mudanças. Quando mais não seja, a consolidação das duas companhias vai trazer alterações quer ao nível do portfólio quer de integração de duas culturas. É um ano interessante.

É a primeira vez que participa numa fusão?

É. Para mim é uma experiência totalmente nova. Temos vários colegas que já tiveram essa experiência, mas para mim é absolutamente novo.

Um ano engraçado…

Sim, vai ser um ano muito interessante.


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